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A POESIA DE AFONSO FELIX DE SOUSA
Antonio Carlos Secchin
“Aqui estou, um pássaro exilado” é o primeiro verso do primeiro poema do primeiro livro de Afonso Felix de Sousa e já sinaliza, de certa forma, as três grandes direções que sua poesia iria perseguir. De um lado, o “estar aqui” sublinha o pertencimento a um espaço; de outro, o “pássaro” é símbolo e repositório imemorial do lirismo; finalmente, o exílio aponta a perda ou a fratura de uma unidade primordial, que apenas a fé na transcendência promete recompor. Telúrica, lírica e mística – assim é a poesia de Afonso Felix de Sousa. A terra, a mulher, e o divino formam o eixo em torno do qual gira a criação de Afonso.
Abrigado pelo selo da revista Orfeu, órgão oficioso da Geração de 45, o poeta estréia em 1948, com O túnel. Em geral, a (má) leitura que se faz dessa Geração (a supor que se faça alguma...) a descreve como alienada e cultora de formas fixas. Porém, mais do que mero capricho de um grupo de rapazes, a recusa aos valores pragmáticos e explicitamente políticos foi tônica de grande parte da intelectualidade ocidental pós-guerra, desencantada com os rumos de um mundo agressivamente cindido entre comunismo e capitalismo. “Os acontecimentos me aborrecem”é o verso que Drummond colheria em Paul Valéry para servir de epígrafe a seu Claro enigma (1951). Quanto à prática das formas fixas, ela representou uma espécie de “classicização” (eventualmente extremada) da linguagem poética contra o desgaste de certos procedimentos modernistas que se esvaíram na repetição, levada a cabo pelos epígonos, das “antifórmulas” inventadas pelos pioneiros de 22. É, portanto, nesse ambiente de desconfiança diante de verdades políticas e poéticas que o jovem Afonso pavimenta o seu Túnel. Na primeira parte, os “Sonetos elementares”, em versos brancos, já atestam um virtuosismo que faz o poeta transitar dos tetrassílabos do poema VII ao metro bárbaro do XXII. A segunda parte, “Prolongamento”, em versos livres, força a nota lírico-erótica, de um erotismo ao mesmo tempo intenso e recatado ou, ainda, recatadamente exposto em sua intensidade: “Helena a me arder no sangue/ eu trouxe lá de Goiás”.
O livro seguinte, Do sonho e da esfinge (1950), apresenta o mesmo convívio de versos livres, em geral longos, e de peças isométricas, a exemplo dos decassílabos dos “Quartetos de contemplação e fuga”, que Darcy Damasceno, ao apresentar a coletânea Pretérito imperfeito (1976), considerou um dos ápices da poesia de Afonso. Um tom de doída nostalgia perpassa o poema, tecido num hábil entrecruzamento de imagens voláteis (“De pássaros sou feito, e quero espaços”) com outras fundamente terrestres (“Ah! Flor e espinhos/ no jardim onde o amor dorme em raízes”). Fiel a seu título, o livro exibe uma atmosfera fluida, haurida numa semântica do impalpável. A ausência e o vazio, como categorias-chave, sustentam metáforas lunares e noturnas, levando “a mundos que sentimos e não vemos”
O discurso algo etéreo das primeiras obras cede passo à celebração sensorial e concreta da natureza em O amoroso e a terra de 1953. João Cabral, quase à mesma época, clamava contra o divórcio entre o universo (em geral metafísico e autocentrado) do poeta e a realidade cotidiana do leitor, e lamentava que formas populares de poesia houvessem sido abandonadas em prol de uma sofisticação que conduziria a arte ao hermetismo e à esterilidade. Um mundo solar, ébrio de luzes, cores e cheiros, habita as páginas dos treze poemas desse Amoroso, que se vale dos metros da redondilha para acentuar o teor cantabile de versos que são pura alegria e paixão: “As noites que lá se foram/ voltam dançando, e a catira/ que se escuta sempre longe/ é doce – ainda que fira./ O vento dá na roseira,/ mas meu bem, ninguém me tira.” Textos que trazem em seus títulos toadas e abecês, como se o poeta estivesse retornando à gramática primordial da poesia.
Recordar, de certo modo, é reavivar uma “doce ferida”. Se O amoroso e a terra enfatizou o adjetivo “doce”, a obra seguinte, Memorial do errante (1956), incidirá no substantivo “ferida”. Sim, porque Goiás não é, como se poderia ingenuamente supor, apenas um espaço; é, antes, um tempo, transcorrido e perdido em algum recanto da infância. Daí ser necessário cavar fundo na memória: não para reaver o passado, mas para confrontar-se com seus despojos: “Como não tinha amor, não guardei o rebanho/ para bem tarde ver que era eu o desgarrado.// Como não tinha amor, descuidei-me das flores/ e é meu peito, é meu peito o jardim em ruína”.
Trinta e seis sonetos ingleses compõem Íntima parábola (1960), com versos alexandrinos de rigorosa fatura, em que a seriedade e o tom elevado não obstam a que o poeta rime “Rimbaud” com “maiô”. Acentua-se o veio de uma “lírica do pensamento”, já vislumbrada nos “Sonetos de meditação”, vazados em rimas toantes, da obra anterior; reflexão agora acrescida de um tempero camoniano, claramente exposto nas peças XII e XVI, ou veladamente esparso ao longo do livro.. O sentimento amoroso e suas armadilhas constituem o leit motiv dessa Parábola, que, sendo exemplar e genérica, não deixa também de ser “íntima”, ou seja, a partir de um amor o poeta prospecta o amor. Mas, como “tudo é matéria ao canto”, o sentimento humano se transmuda em amor divino, no derradeiro poema do livro: “Tua presença é luz que tive entre meus braços/ e, terrível, mostrou-me os meus próprios pedaços.” Essa divindade, simultaneamente amada e temida, é a figura lateral que, mais tarde, ocupará o centro do mais recente livro de Afonso (Soneto aos pés de Deus).
Ao mergulho no passado de O amoroso e a terra responde a imersão no presente do poeta em Álbum do Rio (1965), lançado no ano da comemoração do quarto centenário de fundação da cidade e dedicado à esposa de Afonso, a também talentosa poeta Astrid Cabral. Mais uma vez optando por formas de maior singeleza e comunicabilidade (de que uma epígrafe de Noel Rosa já era augúrio), Afonso investe na melodia do “ponteio”, da “suíte”, da “balada”, do “assovio”, do “madrigal” e outras modalidades que irmanam o canto à poesia. E, no caso, um canto público – o poeta como voz coletiva, expressa em “discursos”, “improviso” e “aclamação”, palavras presentes em títulos de poemas e que pressupõem audiência múltipla e indistinta, oposta ao intimismo da tradição lírica -, algo similar ao que, no ano seguinte, João Cabral de Melo Neto denominaria “poemas em voz alta”. Destaquemos que, num canto tão polifônico, cabe até o minimalismo rítmico do “Soneto ao bonde do jardim da Glória”, rara e exímia composição de texto em verso monossílabo.
Chão básico & itinerário leste (1978) surge após longo intervalo de treze anos, mediado pelo lançamento, em 1976, do já citado Pretérito imperfeito, reunião da obra poética do autor. A parte inicial do novo livro trata, basicamente, de perdas (não se intitulasse “Balanços” um dos poemas...). Mas, para além da pungência da “Segunda glosa elegíaca”, sobre a morte da mãe, se destacam igualmente notas de refinado humor e sutil auto-ironia, conforme se lê em “A ilha deserta”, em “50 anos” (“Prossegue o jogo/mas já de cartas marcadas/ a ferro e fogo”) e sobretudo na muitíssimo bem-humorada “Réplica do aposentado”. Itinerário leste congrega peças escritas durante a estada do poeta no Oriente Próximo, e que ora flagram aspectos da realidade árabe, ora restabelecem os elos nativos por meio de poemas-resposta a livros ou mensagens oriundos do Brasil. Também no Itinerário desponta a veia irônica de Afonso, como no texto-agradecimento por sua nomeação para o exercício de missão comercial no Líbano (“Nossa ou deles a oferta,/ o lucro é coisa certa/ e os contos do vigário/ aqui não têm otário”). No conjunto, o livro se apresenta em linguagem despojada, e com uma prática desenvolta do metro curto, menos usual no conjunto da obra do autor.
As engrenagens do belo, coroa de sonetos, publicado embora em 1981, é texto de que o poeta se ocupava desde 1952, daí guardar certa semelhança formal com livro do final daquela década, Íntima parábola, ambos compostos no modelo inglês – em alexandrinos na Parábola, e em decassílabos nas Engrenagens. Trata-se, agora, com a mestria que se exige para urdir as quinze “jóias da coroa” de sonetos, de celebrar o belo em suas irrupções ostensivas e incontroláveis, e de sublinhar a necessidade de a beleza corresponder a uma experiência visceral, pulsante e histórica – ainda que de uma história forjada na imaginação -, contra a idéia de um esteticismo sem raízes e apenas exteriormente perfeito. Outros temas povoam a obra, como o amor, o desejo de diálogo e a afirmação do deserto intansponível que medeia entre o eu e o outro. Nessa empreitada de fino lavor metalingüístico, e francamente hostil a um formalismo de fachada, Afonso atinge um de seus mais elevados patamares: “O belo vem do sol do que já vimos. [...] Pouco nos toca o inédito e o perfeito,/ se a perfeição se reige em templo gasto/ se o inédito a si mesmo está sujeito/ além de ser a sua sombra e rasto”.
Qüinquagésima hora (1987) é o (até agora) derradeiro livro do autor concebido sem unidade temática. Tal diversidade, porém, faz-se acompanhar de uma profunda homogeneidade no diapasão do sentimento que a exprime: referimo-nos à inflexão arraigadamente pessimista que o autor infiltra em seu discurso, concebendo a existência como uma sucessão de desencantos. Leia-se, a propósito, essa pequena obra-prima sobre a solidão e o desencontro que é ‘O Hóspede”. Tristeza, olvido, estranheza, aridez, amargura, melancolia e dissipação se aliam na mais desesperançada coletânea de Afonso: “Morte completa/ dissolve em lento/ esquecimento/ um poeta.” Curiosamente, dois textos já contêm o substrato dos livros subseqüentes. O fecho do terceiro dos “Sonetos crepusculares” prenuncia a atmosfera dos Sonetos aos pés de Deus. E “De pai a filho” evoca um ser – o filho Giles, ainda vivo – num poema que, três anos depois, integrará a comovente elegia de À beira do teu corpo.
O canto fúnebre ao filho desaparecido encontra, em nossas letras, alguns predecessores de alta estirpe: o “Cântico do calvário”, de Fagundes Varela, no século XIX; ou, já no século XX, A lápide sob a lua (1968), de Abgar Renault. A esses títulos agrega-se À beira do teu corpo (1990), suíte de quarenta poemas, na dolorosa evocação de uma vida e no clamor contra a morte, e que Antonio Carlos Villaça julga o mais belo livro de Afonso: “Ao estreitar-te/ como se a ver-te/ num sonho,/ o que eu abraço/ é o vazio”.
Finalmente, em 1994, vêm a lume os Sonetos aos pés de Deus e outros poemas. “Por tudo o que me dás sejas louvado” é o dístico que encerra todos os vinte e nove sonetos místicos do volume, reencenando a figura divina como pólo irradiador do bem, mas igualmente da privação e da provação, gerando o misto de amor e temor a que nos referimos. E esse encontro com Deus nos remete, também, ao título que o autor escolheu para sua poesia reunida: Chamados e escolhidos. Valemo-nos do preceito bíblico para dizer que, também no reino dos poetas, muitos são os chamados, e muito poucos são os eleitos. Entre esses, seguramente, se encontra Afonso Felix de Sousa. Cronista, dramaturgo, impecável tradutor de Villon, Donne e García Lorca, mas sobretudo poeta – por tudo o que nos deu louvado seja.
(In Chamados e escolhidos – reunião de poemas - Apresentação: Antonio Carlos Secchin, Editora Record, Rio, 2001)
O TÚNEL 1945/1947. Publicado em 1948
SONETOS ELEMENTARES
I
Aqui estou, um pássaro exilado
do mundo que criei à minha imagem.
Estou como meus pais, entre horizontes
de pobres paredões e frutos podres.
Em meio à cerração ouço esses passos
que ao comando do medo ou do desejo,
meu destino constroem singrando as horas
que de um silêncio vão a outro silêncio.
Por detrás brinca a infância – na planície
a se estender até a encosta em brumas
onde o corpo rolou, deixando as mãos,
as mãos que soltam no ar as aves bêbadas,
que com as asas colhidas na planície
sobrevoam cidades em ruínas.
VII
Do dia a noite
da noite a aurora
da aurora o tédio.
Viagem lenta.
Do amor o espasmo
do espasmo a dor
da dor a vida.
Viagem lenta.
Flores do sonho
jamais colhidas.
Viagem lenta.
No fim a origem
sangue das coisas.
Viagem lenta.
XXII
Mesmo depois de a janela tapar a boca dos ventos
alguma coisa em nós continua. O poder dos instantes
entre a claridade e o mergulho íntimo na sombra
traz as marcas mais fundas de nossas vidas.
É rápido o momento. Tanto que mal o percebemos
e já estamos com mundos que nem sonhávamos,
mas cruzam imponderáveis os círculos
de nossos pensamentos curtidos em contínuas mortes.
Amanhã não reconheceremos senão fragmentos
do instante de plena lucidez, e afogados em lembranças
súbitos raios cairão sobre as estradas.
O momento maior será no fim dos caminhos,
quando no silêncio der o túnel que nasceu do silêncio.
Mas ninguém compreenderá o meu último poema.
( O Túnel, 1948) Afonso Felix de Sousa 1925-2002
PROLONGAMENTO
A FONTE E A ORIGEM
Os inocentes brincavam com a manhã
quando enormes aves negras
sobrevoaram a paisagem.
Eu também podia fugir
pelos caminhos pressentidos
por tenuíssimas chamas.
Mas era nítido o cristal da infância,
Reconheci a estrela dos reis magos
e segui a carruagem de cimento.
Eles semeavam espadas
em corações de crianças,
multiplicavam as bandeiras
e as auroras escondiam.
Embaixo as rodas esmagavam
Cristo e as flores.
Ainda tentei agarrar-me à cruz
que a carruagem conduzia,
mas ela se cravava nos milhões de olhos
de que manava minha lágrima.
E nada me arrastaria de volta
à margem das mansas águas
que apagaram os vestígios
do coração
em busca de silêncios e de amadas.
Que não se cumprisse
o destino do corpo
antes que aprofundasse os caminhos
onde os pés sangravam
em pedras e lembranças.
O movimento
esboçando as horas,
ódio entre braços
e bocas que amavam,
pedaços de alma sangrando,
a participação
- o canto.
Não águas escorrendo da nascente,
antes relâmpagos no céu da madrugada.
Fios elétricos
comunicando-me com anjos
gerados pelo abismo.
Algum dia mãos alvíssimas
romperão as pedras,
e esta lucidez
esta ternura
os resíduos da infância
renascerão como flores
em baladas de amor.
( O Túnel, 1948) Afonso Felix de Sousa 1925-2002
TRÊS CANÇÕES NA AREIA
I
É uma mulher na praia,
presença brusca do céu.
São mãos que ensaiam na areia
as carícias que virão.
É um murmúrio de lábios
no vento que vem do mar.
São desejos nas espumas
que nunca irão a Goiás.
É uma canção na praia,
o mar entre mim e a dor.
II
Um pouco de mim vem vindo
da vida que eu quis viver.
Afinal entendo as ilhas
e o pranto que não voltou.
Nasce em mim um arco-íris,
logo abraça a terra e o mar.
III
Achei versos que Anchieta
noutras praias escreveu.
Achei auroras e fugas,
achei você, achei eu.
(O túnel, 1948) Afonso Felix de Sousa 1925-2002-09-08
A UMA DAMA
QUE QUIS SABER COMO ENCARO A MORTE
Mote alheio
Onde foi Tróia,
onde foi Helena,
onde a erva cresce,
onde te despi.
Glosa
Vou buscar o tempo
que perdi sem ver-te,
vou buscar a lágrima
que chorar não pude,
vou buscar os anjos
desaparecidos
antes que eu os visse.
E que tudo cubra
meu sono de mármore
onde foi Tróia.
Já sem esperança
de colher a aurora
de outro mundo novo,
em meio à ruína
da antiga revolta
diante do homem
cavalgando o homem
não importarei
que o rio cesse
onde foi Helena.
Sou ligado ao mundo
por cordas de vidro.
Na rua o abismo
em cada esquina
espreita meus passos.
Minutos ou lâminas
cavam uma cova
do tamanho meu
no fundo silêncio
onde a erva cresce.
Contudo caminho,
caminho e resisto.
De lagos que dormem
na memória incólume,
do sangue da rua,
de ti e de mim,
construí meu canto:
tranqüilo epitáfio
gravado no céu
onde te despi.
(O túnel, 1948) Afonso Felix de Sousa 1925-2002
DO SONHO E DA ESFINGE
1948/1949 – publicado em 1950
Dedicado a Darcy Damasceno,
Fernando Ferreira de Loanda e
Sabato Magaldi.
NASCIMENTO DO POEMA
Onde plasma o impossível
o que mais queres, onde auscultas
nas coisas o pulsar de enigmas,
onde a incoerência dos deuses
desaba em desertos de carne
e (cego) olhas a realidade.
Onde estás quando és
o mesmo, o múltiplo e pesa
em ti o que embora é morto – vives,
cantar ao sol da essência... e das formas
a que expanda, eterna,
a rosa agora a abrir-se,
e seja como som
ferindo os horizontes banidos
de tua alma,
e arda, diamante
no transmigrar-se
da flama em treva.
Do canto (do que nele
há de amargo) extrair o mel
com que te embriagues.
Dele – formar as asas
que te levam, leve,
enquanto, com o pensamento,
sonhas... pois se pensas, raízes
das mais pobres horas te penetram,
e cantar, já não cantas.
No etéreo, muito além
de onde os caminhos cortavam
o mistério, teu canto é um sopro.
E sopram os ventos, das sombras
que de ti se projetam
para ti, para trás,
e espalham as palavras
de que alcanças
a mansa superfície.
As palavras... como a um fruto
abri-las – a polpa áspera
da vida.
Afonso Felix de Sousa (1925-2002)
SONETO DO ESSENCIAL
A vida, a que não tens e tanto buscas,
terás, se te entregares à poesia;
se andares entre as pedras, as mais bruscas,
da escarpa a que te leva a rebeldia;
se deres mais ao sonho, com que ofuscas
as luzes da razão e o próprio dia,
o coração que pulsa, se o rebuscas,
no eterno... Ou pulsa um deus que em ti havia?
Que pobre o teu sentir, se não te salvas
perdendo-te de vez nas terras alvas
que chamam da mais alta das estrelas.
Se a tanto te ajudar o engenho e arte,
ao impossível possas elevar-te
subindo em emoções, mas por vive-las.
Afonso Felix de Sousa (1925-2002)
MOTIVOS DE RETORNO
(1)
Clareiam-se os abismos
e volto sobre os rastos
que em mim deixou o amor.
Curvar do tempo em púrpura,
e as aves, eis que cantam
nas torres do vazio.
Em vão pedir à esfinge,
se as horas absorveram
a flor em que te abrias.
Em vão colher no sonho
espelhos derramando
as fontes já perdidas.
Ouvir... que pungitivo
o amor que fora outrora
a música de um corpo!
Teu corpo
- a sede
- a fuga
Desenho em claro e areia
de ausências e de chagas.
Afonso Felix de Sousa (1925-2002)
POEMA DA PERMANÊNCIA
Benditas as mãos que para vestirem o nada
teceram as nuvens.
Agora, antes que a tarde se derrame em ouro,
posso vestir a tua ausência com os sentimentos mais
[simples e esvoaçantes.
Posso esperar que as coisas, a que estou preso, se encantem,
e as rosas ressurjam de entre os espinhos, no amoroso oásis.
Pois alguma coisa existe, mais profunda que a memória,
e ainda que te multipliques em flocos e borboletas,
ao mirar-me te encontrarei, como foste, na dor e nos
[espelhos.
Que ecos de adeuses retidos
no peito, no escuro onde palpita a alma
daquele que já fui, em outros tempos
que a lenda acobertara!
Quantas palavras te trazia!
Quantas pedras do íntimo! Quanto brilho!
Hoje, nada que acorde as flores sepultadas,
e um sol de ocaso esteriliza as fontes
de onde o canto jorraria.
Só o que passou está vivo. E ao partir, eu volto
nessas naus que me levam pelos rastos do perdido
e de novo me lançam onde o que foi meu coração
rasteja entre ervas desoladas.
...e assim possas viver enquanto houver alturas
e te encontrares, como foste, nos fins e nas origens
entre formas destruídas.
Afonso Felix de Sousa (1925-2002)
SONO
Te aquietasses, carne
cortada em mil apelos
de amor, de sono. E as mãos
(suspensos teu destino,
teu peso, tantas noites)
leves, fogem do leito
e voam, voam, cortam
as regiões do exílio.
Dentro: tocar o ausente,
o irreal, o tempo
feito em perdas e formas
irrecuperáveis.
Dentro: janelas dando
para ontem, árvore
donde pendiam frutos
do céu que não pudeste
levar à boca,
serpente em volta à flor
que colhias na tarde...
Mas eis que é noite – e esqueces.
Dentro: o esquecimento,
ilha – a cercá-la o tédio
e o tédio e o tédio. Estradas
aqui terminam; ruas,
roupas, hábitos, planta
cotidiana, aqui
terminam – dormem.
Ou dormes. Que silêncios
em ti se reuniram
para dar-te o sono
a que te entregas!
Para entregares o corpo,
quantos passos, cansaços
sobre lajedos, sombras
do íntimo e de edifícios
entre as cores – e dormes,
derrotado. Ó derrotado,
dorme. Dentro do sono
o sonho, alado espelho,
e o que querias – sonho –
e não querias – sonho.
Aves do intangível
te contemplam e chamam
de longe, no perdido:
Não vês – mas corres, voas,
dormes.
Afonso Felix de Sousa (1925-2002)
AS BOCAS FOSSEM OUTRAS
As bocas fossem outras, que falassem
de terra, mas não esta,
onde a beleza, eterna, perderia
os homens sô por vê-la,
e ouvir não fosse ouvir tantas perguntas
a medo murmuradas,
mas a que espero há muito, uma resposta
que fale mais que a música.
A vida, a que sonhamos em segredo,
palpá-la com um gesto
de fogo, de poesia, de loucura,
e mansos, em espumas,
cantassem aleluias dentro da alma
os anjos dominados.
Toquei em muitos seres, tantas coisas
por mim tocadas foram.
que, como vento, levo – mas suave –
um beijo, um arrepio.
Mas como te alcançar com mãos de pluma
se as aves são de carne?
Fugir, fugir... de mim e desta sede,
pois fonte alguma basta,
e ser, no húmus do amor, uma semente
rompendo o escuro e o duro.
E cresçam. Crescei, árvores, milagres
em terras, mas não esta,
onde a beleza eterna seja, e a vida
ganhássemos por tê-la.
Afonso Felix de Sousa (1925-2002)
QUARTETOS DE CONTEMPLAÇÃO E FUGA
I
No olhar, o olhar que busca – e os barcos, longe.
Aves (mas de que amor?) no mar perdido.
Ah, velas soçobradas no impossível
afloram junto a mim, mas tarde, tarde!
De amor não falo ao mar, deixo que à brisa
meu silêncio navegue até às ilhas
que cerquei de lembranças – e uma voz
que reconheço minha o mar devolve.
A tarde em mim pulsando. Rubros frutos
de sóis que se apagaram tingem sonhos
doendo em despedidas... E douraram
ocasos que moldaste, foram nuvens
que olhava para ver-te... Eras meu reino.
E eu tinha asas nas mãos, dedos crispados
a desenhar teu corpo. Ah! Flor e espinhos
no jardim onde o amor dorme em raízes.
II
Árvores descansando à sua sombra
a sombra do que fui. Brancas estradas
no curvo pensamento, luz tardia
no que foi sonho e é sonho, morto embora.
De pássaros sou feito, e quero espaços
para verter em ária a nostalgia
de ninhos destruídos... Flores de ontem
renascem sobre o amor já feito em lenda.
Na mão cinco prisões, cinco destinos
indico além de mim, e ouço o bater
de asas que não me valem: sou alguém
fugindo de outro alguém jamais ausente.
Acenos do longínquo: o céu e um lenço
na alma de cada tarde em que mergulho
meus passos de quem foge – e voltam, volto
ao que já fui, sustento do que sou.
Afonso Felix de Sousa 1925-2002
Do livro “Do sonho e da esfinge”, 1950
O AMOROSO E A TERRA
1949/1952 publicado em 1953.
Dedicado aos companheiros de Goiás
e à memória de Leo Lynce.
TOADA GOIANA
Correr chapadas e serras
cobertas de casimira.
As noites que lá se foram
voltam dançando, e a catira<
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que se escuta sempre longe
é doce – ainda que fira.
O vento dá na roseira,
mas meu bem, ninguém me tira.
Quem ama, reclama e chora,
canta e suspira.
As muitas matas, as muitas
solidões... que amor as planta?
Quero bem a uma menina
que vê-la é ver uma santa.
Deixei-a, vim correr mundo.
Agora tenho a garganta
atravessada do espinho
desta saudade que é tanta.
Quem ama, chora e suspira,
reclama e canta.
Poeira em giros vermelhos,
e o tempo já foi de lama.
Sete cravos, sete rosas –
é pouco para quem ama.
Sete cartas de lembrança –
e a ingrata, que não me chama!
Faço fé que ainda me lembra,
pois sou goiano de fama.
Quem ama. suspira e canta,
chora e reclama.
O vento vem, dá na vida.
Mas a terra – é em mim que mora.
Passarinho no coqueiro,
do meu bem fala-me agora:
se está morto, se está vivo,
se casou, se foi embora.
Vem a seca... Vêm as águas...
E a resposta já demora.
Quem ama, canta e reclama,
suspira e chora.
Afonso Felix de Sousa (1925-2002)
A ÁGUA QUE CANTA
Não bebe! A água é quem canta,
pois já deu banho na santa.
Quem bebe da água que canta
por ter que morrer um dia
e já deu banho na santa,
sai rindo – se antes sofria.
Não beba! A água é quem canta,
pois já deu banho na santa.
Quem bebe da água que canta
ao céu do seu alto Esposo
e já deu banho na santa,
se cura, - se era leproso.
Não beba! A água é quem canta,
pois já deu banho na santa.
Quem bebe da água que canta
o que ouvia Santa Dica
e já deu banho na santa,
mais moço que é, ele fica.
Não beba! A água é quem canta,
pois já deu banho na santa
Quem bebe da água que canta
a dar vida enquanto escorre
e já deu banho na santa,
vive mais depois que morre.
Não beba! A água é quem canta,
pois já deu banho na santa.
Quem bebe da água que canta
à sombra dos Pirineus
e já deu banho na santa,
bebe os segredos de Deus.
Não beba! A água é quem canta,
pois já deu banho na santa,
Afonso Felix de Sousa (1925-2002)
TOADA DO ENJEITADO
Em cima daquele morro
corre a chuva e corre o vento.
Corre mais meu pensamento
sem ter nunca onde parar.
Mundo de Deus... Vou-me embora.
Por que me vou, nem tão falo.
Muita mágoa em meu cavalo
vai – e não deixa sinal.
Este meu cavalo
só falta falar.
Não ter pai, não ter parentes.
Já no tempo de eu menino
aloitava com o destino
vivendo aqui e acolá
em trabalhos e canseiras,
e não tenho um querer-bem
que bem me cuide – ninguém!
Não por falta de eu tentar.
Este meu cavalo
só falta falar.
Parece que sabe
o que vou mandar
e vai onde quero
ao me ver montar.
Açoita-se o ar. Chão ferido.
Bem que dá gosto ir correndo.
Mas me pisa o não ir tendo
pela estrada em quem pensar.
Tinir de esporas, de espinhos.
Duros cascos... Quanta mágoa
no meu peito não deságua!
- E onde alguém para a secar?
Este meu cavalo
só falta falar.
Largo toda a rédea.
(- Meu bem, quem será?)
Não é que ele sabe
o rumo a tomar!
Do lado de lá do rio
há duas casas pequenas
onde vivem as morenas
de quem um dia ouvi contar.
Mundo de Deus... Que vazio!
Ninguém mais aqui não mora.
Daqui também vou-me embora,
e nunca mais vou voltar.
Este meu cavalo
só falta falar.
Afonso Felix de Sousa (1925-2002)
GARÇA BRANCA
Na casa que de tão branca
se perde atrás do areal,
branca ausência vinha à noite
embeber-me em sonho e sal.
E branca, como se feita
de um dia de sol e paz,
era a garcinha que veio
à minha porta parar.
Abri-lhe a alma, e a garcinha
ficou comigo a morar.
Meus dias, que foram brancos
não de penas, mas penar,
a garça branca arrastava
para trás do para trás,
como se a vida antes dela
não fosse nem minha mais.
Minhas manhãs eram brancas
com Garça Branca a cantar.
Cantava e quando cantava
o céu se punha a escutar.
Parava e quando parava
o céu se punha a cantar.
Que tardes! Eram tão brancas
com Garça Branca a cuidar
de meud trapos de silêncios,
de minhas sedes de amar.
Das fomes que de comer
frutos do bem e do mal
se fecharam noutras fomes
diferentes, mas iguais.
Nas noites de lua branca
sobre nós a passear
ou de sonho ainda mais branco
para longe a nos levar.
Garça Branca – bem a ouvia
a errantes nuvens falar –
falava, e enquanto falava,
o que eu ouvia era o mar...
E com que alvor! – Nem se fora
feita de nuvem ou de ar –
Garça Branca abriu um dia
as asas de par em par
e foi, se foi de minha alma
para nunca mais voltar.
Enfiei o pé na estrada,
pois havia de a encontrar
em qualquer lugar do mundo,
que era o meu grande rival.
Garça Branca ia bem longe,
pra lá de Minas Gerais;
mas como estava presente
no vento ventando ais
e em cada rasto dos rastos
que me levaram ao mar!
Eis que vi, mas já bem longe,
levantando espuma e sal,
um navio e nele a alvura
da saudade a me afogar.
Duas bandeiras, dois brancos
acenos do nunca-mais,
diziam que Garça Branca
iria desembarcar
muito além, por este mundo,
que erao meu grande rival...
Só depois de muitos anos
e depois de muito andar,
numa esquina de pecados
vim a encontra-la, afinal,
deitada à beira da fonte
de um desespero mortal.
Oh, volta, minha garcinha
(e Garça Branca a chorar),
pois nos espera a casinha
perdida atrás do areal.
O que passou já se apaga
de tanto estar para trás.
Vê meus cabelos, já brancos
vê minha alma a conservar
tua forma em branca ausência
...e Garça Branca a chorar.
A noite cobriu de noite
Seus olhos doces de sal,
Mas de manhã já voltávamos
deixando europas e mar,
à casa que em nós morava
- E Garça branca a cantar!
Quem nasce nessas planuras
e quer bem, o amor é tal
que por mais que delas fuja
mais nelas vive a morar,
e do amor só mesmo a morte
que é morte pode apartar.
Afonso Felix de Sousa (1925-2002)
TERESA BICUDA
O fogo na serra
- quem foi que atiçou?
De onde é que ele veio
ninguém me contou.
Ela era tão negra
que o sol se apagou
ao vê-la, e em seus olhos
nem brilho deixou.
Mais suja que o brejo,
mais feia que a dor,
uma vez banhava-se :
o corgo secou.
Foi-se ver no espelho:
o espelho quebrou.
Seus beiços caíram
- assim, meu sinhô!
Caíram no queixo,
- assim, meu sinhô!
Bico de tucano,
- assim, meu sinhô!
Teresa Bicuda
(que assim se chamou)
não quis nos seus dias
que o tempo afundou
entrar numa igreja,
e nunca rezou
ou deu a quem fosse
um pouco de amor.
Das mães dos meninos
ela era o pavor,
pois quantos olhara
a vida os gorou.
Tanto mau-olhado
nas moças deitou
que por muito tempo
nenhuma casou.
Dizem que entre cobras
foi que ela morou.
Bebia veneno,
depois ia pôr
o guspe nas plantas
e nos pés de flor,
até que o terreiro
da casa crestou.
Por onde passava,
por onde passou,
de muitos pecados
ficava o fedor...
de que que morreu
ninguém me contou.
Morreu madrugada,
- assim, meu sinhô!
não quis ver o padre
- assim, meu sinhô!
e rogava pragas...
- Assim, meu sinhô!
E foi, no outro dia
o povo pegou
enterrou-a como
quem a Deus rezou
no largo da igreja
de Nosso Senhor.
Teresa Bicuda
(que assim se chamou)
três noites seguidas
de noite gritou
a pedir ao povo
que ali a enterrou
para retirá-la
do túmulo e pôr
bem longe da igreja
de Nosso senhor.
Depois de três noites
de insônia e terror
o povo, tremendo,
da cova a tirou
e então lá na serra
de novo a enterrou.
O fogo na serra
- quem foi que apagou?
Afonso Felix de Sousa (1925-2002)
MEMORIAL DO ERRANTE
1950/1955 publicado em 1956
Dedicado a Aníbal M. Machado
Antonio Pedro Martins Rodrigues
e Aurélio Buarque de Holanda
INSCRIÇÃO
Roam, ratos da vida, roam, roam-me
o coração e o seu poder de entrega.
Um pouco será meu – e esse pedaço
faz de mim um pastor de ovelhas surdas.
É tempo de falar... Entre montanhas
me responde meu eco, e me transvio.
É minha a voz. Nela palpitam pássaros
frustrados nos desvãos de torres mortas.
S em mim se exila um rei que sonha um trono,
rolem, pedras da altura, rolem, rolem.
Um mar em conchas muitas, tenho o ouvido
desses índios que ao chão escutam longe.
Um cruzador que vem de entre ilhas rubras
fere o cristal de vagas represadas.
Cavalguem-me, cavalguem-me, almas áridas.
Em pouco lhes darei água da fonte.
Ah, beberemos, juntos, numa copa
que outra aurora a chegar há de ofertar-nos.
Nas árvores ao sol escolho um tronco,
gravo um nome e por baixo:
Eu te amo, ó vida!
Afonso Felix de Sousa (1925-2002)
AUTO-RETRATO
A maneira de andar
como quem busca
estrelas pelo chão.
A cabeça a dar contra os muros.
Em cada olho, o mundo como um punhal
- cravado.
O pensamento a abrir estradas
numa várzea distante.
Os ângulos do sonho formando orlas
povoadas de fêmeas
que a meu encontro viriam
do outro lado, em lânguidas posturas.
Diante do mar, a sede, a sede
de beber a vida em infinitas viagens.
As garras de gato ante paredes impostas.
A impaciência de que chegue a manhã e a praia,
a tarde e o amor.
A maneira de andar
como a fugir dos homens
- e tê-los contra o peito.
O pensamento a atirar pedras
contra as vidraças
que guardam os produtores frios
de injustiças.
O coração que bate
ao som de fábulas.
Que bate
contra rochedos mortos
numa praia de cinza
onde palpita o primeiro amor.
O coração eterno.
O amor eterno
que bate.
A alegria! A alegria!
Íntima, espantada de si mesma, gloriosa
como palmas a se abrirem aos quatro ventos,
a alegria de sentir-me vivo, a alegria
de bicho do mato, criança, dominada,
eterna.
Afonso Felix de Sousa (1925-2002)
OFERENDA
Altíssimas estrelas,
guardai nosso destino
em ânforas de febre.
Ah, ser e estar na terra
e ter que ser e ter
que estar entre horizontes
preso a essas raízes,
qual se não nos bastara
colher no lodo flores
que sonham o alto e o orgulho
de altíssimas estrelas.
Não somos senão homens,
mas de nós algo sobe
em delírio e vertigem
e volta com centelhas
de sóis que jamais vemos.
E ser e estar na terra!
As emoções roubadas
vão fugindo com as nuvens
e há feras que mastigam
a beleza esmagada.
O espaço que nos sobra
é o que mais nos oprime.
E a infância? – Meigo arco-íris
partindo de meu peito
vai descer sobre as águas
de um rio que se forma
da lembrança de um rio.
De meu, que tenho a dar-vos?
No princípio era o verbo
e o verbo se fez carne
e a carne se fez caos
e o caos já se faz forma.
Ah, névoa enfim rendida!
Olhai, se vos perdestes
do farol da esperança –
olhai o cais da vida.
Eis o porto sonhado
que não é meu (é nosso)
e é quanto pode dar-vos
um bicho vil da terra
a refletir-se na alma
de altíssimas estrelas.
Afonso Felix de Sousa (1925-2002)
CONTRIÇÃO
Como não tinha amor, não guardei o rebanho
para bem tarde ver que era eu o desgarrado.
Como não tinha amor, descuidei-me das flores
e é meu peito, é meu peito o jardim em ruína.
Como não tinha amor, não dei quando me davam
e este é o meu coração: a aridez de um deserto.
Como não tinha amor, fugi à voz do sonho
e a máquina de Deus mói o cristal da vida.
Afonso Felix de Sousa (1925-2002)
RESGATE
Que pode dar-vos, príncipes guapos,
quem não tem nada do que pensais?
Falam meus olhos de uma alma em trapos.
Minha alegria, que pode mais?
Vede se canto: choram raízes
adormecidas em cicatrizes...
Que hei de dizer-vos, ó suseranos,
que não estrague vossas noitadas?
Tudo o que falo volta em pedradas.
Tudo se estorce num mar de enganos.
Se tenho amores? – Que ouçais meu peito.
(Um baque surdo diz sim, diz não.)
Meu reino é outro, não vos aceito,
e a vós me achego. Rogo perdão!
Tenho uma dama: tendes os tronos
e cães de guarda nos vossos sonos.
Tenho uma dama que é filha vossa;
tendes as chaves de alta morada.
De meu só trago braças de nada
e um querer louco... Querê-la eu possa.
Afonso Felix de Sousa (1925-2002)
CONVITE
Agora que o campo é de areia
pisemos de modo que os rastos
não nos mostrem como voltarmos.
E vamos ao mar, que derrama
sobre nós seu licor de pérola
e em mim todo um fervor de espumas.
Sei de ilhas contidas em conchas.
A elas pediremos repouso
quando a noite trouxer lembranças.
Segue-me... e para trás deixemos
pais e irmãos, esposos e filhos,
E os cinzas gradis que nos guardam.
Depois de ao mar nos atirarmos,
qual seja o rumo a que nos leve
há de ter fim no que buscamos.
Afonso Felix de Sousa (1925-2002)
MONÓLOGO A BORDO
Meu silêncio a barlavento
singra-te o corpo estrangeira
(latitudes... longitudes...
entre teus pés e os cabelos),
deixa as grades do mar alto
para prostrar-se em teus joelhos.
Ah, que coisa eu diria,
Menina, se me entedesses;
Se a Babel não se elevasse
Do meu anseio a teus seios.
- Já te contaram de um moço
que ouvia cnto de sereia?
Pois se pôs a andar em mares
e ouviu (mas era em si mesmo).
Era uma voz que o arrastava
para medonhos rochedos,
onde as ondas, minha filha,
se esbatem sobre caveiras.
Dizem que para salvá-lo
Há no mundo uma princesa.
O moço foi pelo mundo...
E onde o amor cercasse um feudo
ia à castelã rogar-lhe
que aplacasse tais apelos,
jogando a novo destino
seu coração cheio de erros.
Mas por levar sempre às costas
a trouxa de desesperos,
veio alfim perder-se em périplos
atrás de um maiô vermelho.
Saibam todos que é esse moço
quem te guarda ao sol dos deuses.
Pajeia-te e desmilingüe-se
sua alma esculpida em cera.
Se um pouco de si lhe sobra,
diz: - “Höre, meine... princesa” –
enquanto grita por dentro:
- “Nunca vi tanta beleza!”
Pobre Afonso! Pobre Alphonsus!
- chora um mar de espasmo e espelhos.
Pobre de mim! Geme o moço.
Se à proa fosses mais ele,
havias de aprender coisas
da fala do brasileiro,
por obra das nuanças várias
do que vem a ser chamego.
Foi do mundéu dos goiases,
de lá que esse moço veio.
Afonso Felix de Sousa (1925-2002)
PRANTO POR FEDERICO GARCÍA LORCA
Não.
Não quero vê-lo!
O olhar muito abarca. A luz
é o vislumbrar de um sonho
a abrir todas as portas.
Da janela da torre escorre
uma cidade.
E para além são campos
ressequidos, são curvas
que sensuais revelam
oliveiras e formas
que ao sol da Espanha roubam
um tórrido destino.
Mas o olhar muito abraça.
Um rio exausto
chorará uma canção
de desterro, que corre
- ensangüentada!
Tão bem sobe às nuvens
essa canção
como se levada
nas asas de uma guitarra.
Não.
Não quero ouvi-la!
O céu se fecha em cinza e disco
e dele desce
outra canção, que é a mesma.
Não! Sei que numa câmara
da memória, onde guardo
profundo diamante,
lá estão essas paisagens
de aspereza e sono,
e sinto que esse canto
ao penetrar-me a alma
consigo mesmo se encontra.
Ó pobres terras, ó terna
Andaluzia, mais que sombra,
que sombra assim se projeta
por tuas extensões,
mais alta que teus campos?
Meu olhar tudo abarca. E tomas,
e és a forma de um corpo, e és
um cadáver que se alonga
a banhar de vida a Espanha!
- assassinada!
Não.
Não quero vê-lo!
Afonso Felix de Sousa (1925-2002)
AS ENGRENAGENS DO BELO
1952/1953 publicado em 1981
dedicado a Rosário Fusco
I
Se a seta da beleza nos acerta
e em êxtase pairamos de repente,
Que mão ou que inefável nos desperta
da vida e sua lógica inclemente?
Cada manhã o mesmo sol nos cobre
e sempre o mesmo é o ar de que vivemos.
A alma se encolhe, cada vez mais pobre.
A boca, já nem sabe o que comemos.
Olhamos no jardim flores murchando
e no pomar nem nos importam frutos.
As horas morrem, nem sabemos quando.
Rendemos (e a que reis!) honra e tributos.
De súbito de nós nos ressurgimos:
O belo vem do sol do que já vimos.
II
O belo vem do sol do que já vimos,
em nós e sobre nós mantendo acesa
nossa alma a equilibrar-se em seus arrimos
de formas e quinhões da natureza.
Do núcleo desse sol descem imagens,
que expostas frente a nós e contrapostas
uma a outra desdobram-se em paisagens
de angras ou de vergéis, de céus, de encostas...
Imersos, a seguir esse cortejo
de imagens ora claras, ora em fumo,
no fim já nem sabemos a que ensejo
bebemos da emoção em febre o sumo.
E o belo vindo a nós como em sigilo,
Sentímo-lo, mas como transmiti-lo?
III
Sentímo-lo, mas como transmiti-lo,
esse frêmito, a alguém, se é regra termos
também ao ver e ouvir um nosso estilo
e projetarmos sombras de ilhas, de ermos?
Tanta coisa em comum: instintos, fala.
Vamos, um de outro, cada vez mais perto,
e ao nos calarmos, do silêncio exala
o hálito de quem prega no deserto.
Quão próximos um do outro, e quão distantes,
no abraçar, quão pouco o abraço abarca.
Tudo como se em grei de semelhantes
Cada um levasse à fronte a própria marca.
E mesmo o nosso ser, se o descobrimos,
Pisamos ora abismos, ora cimos.
IV
Pisamos ora abismos, ora cimos,
por mantermos nos pés pássaros tontos.
Um passo a mais – se não nos sucumbimos,
já o próximo hesita entre dois pontos.
Um pé pisando o sonho e o outro o provável,
do que há de vir adiante nos perdemos.
O mar convida com seu dorso instável
a singrá-lo, e ilusões são nossos remos.
Se subimos, aguardam-nos descidas
e o chão pode fugir aos nossos passos.
Descemos, o horizonte são subidas,
e no alto nos esmagam os espaços.
Mundo belo e falaz... Ao vê-lo e ouvi-lo,
o olhar, ora é inquieto, ora tranqüilo.
V
O olhar, ora é inquieto, ora tranqüilo,
que os olhos, nesse câmbio ou livre jogo,
sem nunca se deter nisto ou naquilo,
têm no seu centro essências de água e fogo.
Se eles fechamos, salta do invisível
e seus porões de adormecidas brasas,
um território a erguer-se ao plano, ao nível
daquele a que se vai com nossas asas.
E o invisível, no que será o centro
de nós, se mostra em formas, cenas, vultos
girando num caleidoscópio dentro
de nós, em planos claros, bem que ocultos.
Mas do que vemos e é por nós aceito,
pouco nos toca o inédito e o perfeito.
VI
Pouco nos toca o inédito e o perfeito
quando o que é novo é por si só o novo
sem ter com que ferir-nos a alma e o peito,
sem o pulsar de um túmulo ou de um ovo.
E o que é perfeito é como o fruto exausto
que cai da árvore mais do que maduro,
a si mesmo se dando em holocausto
por se bastar no seu esmero puro.
Mas nós, trazendo às costas nossa história
de erros a gerar erros; nós, expulsos
do Paraíso, nós somos a memória
de árduas jornadas, com grilhões nos pulsos.
E o perfeito não é da alma repasto,
se a perfeição se erige em templo gasto.
VII
Se a perfeição se erige em templo gasto
(gasto – que não se pense em tempo, danos –
gasto por nada mais dizer no vasto
domínio em que se erguera um dia, há anos),
acaba por cansar-nos... É que ilude
um céu de muito azul, onde encontramos
por instantes o gozo, a plenitude,
e em pouco mais, são outros os reclamos
do coração saciado. Que a nós venha
um outro céu de nuvens e tristezas,
e assim de nossas almas o céu tenha
as cismas e a linguagem a ele presas.
O antes não visto em nós não faz efeito,
se o inédito a si mesmo está sujeito.
VIII
Se o inédito a si mesmo está sujeito
e surge qual de planta sem raízes,
traz todos os sinais do que foi feito
e não do que se criou, nos seus matizes.
Terá do belo o tom, e até o canto
de música ritmada em sons forjados,
que ouvimos como a ouvir um contracanto
de pássaros sutis, mas ensinados.
Terá do belo a plástica, o contorno,
e nuanças de paisagens longe, belas,
a fazer-nos erguer um olhar morno
de quem olha miragens sem crer nelas.
Far-se-á do sonho lúbrico, mas casto,
além de ser a sua sombra e rasto.
IX
Além de ser a sua sombra e rasto,
tem de Narciso a converter-se em templo
de si mesmo, quem faz de espelho e pasto
o próprio ser e a si tem como exemplo.
O travo solitário, o de um eunuco,
sobre seu peito é vácuo, é tédio, é peso.
Da vida o que ele extrai é neutro suco
De acre ou nenhum sabor a que vai preso,
E seus passos, seus passos indo em torno
de si mesmo, ressoam no vazio.
Se ama, mesmo no amor o ardor é morno;
se abre-se em flor, é flor de hálito frio.
E a nós, de alma votada ao que é complexo,
pouco nos toca a rosa com seu nexo.
X
Pouco nos toca a rosa com seu nexo
se as pétalas não têm por alma gêmea
o viço das auroras e, em anexo,
as vibrações da pele de uma fêmea.
O que há por trás da rosa – a carnadura,
a seiva e os tons de arco-íris seqüestrados –
é que a mergulha em favos de doçura
e vida lhe insinua aos rendilhados.
Um corpo de mulher, se nele vemos
tantas formas captadas à beleza,
não baste o culto a esses dons supremos
de Deus-Consolação á natureza.
Nele busquemos mais que a aura vazia
de pétalas e cor em harmonia.
XI
De pétalas e cor em harmonia
forma-se a rosa, e nela o odor e a essência
são porções da peçonha em que se cria
já no contorno o breve da existência.
Um corpo de mulher, na área do busto
enroscam-se nos ombros, nas axilas
e entre os seios, serpentes que sem susto
seguimos, como ao charme das pupilas.
Que seus caminhos levem-nos ao ventre
e o silvo agudo ao deslizar no bosque
da redenção, ao fim do qual se adentre
o que em nós é serpente – e ali se enrosque.
Que ali se sagra o amor, mas desconexo
se não traz de outras rosas o reflexo.
XII
Se não traz de outras rosas o reflexo,
que pode a rosa dar d
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e estrume ao homem?
Pensemos em Adão no Éden, perplexo
ante flores que os dias não consomem.
Rosa, rosa do sexo, as suas garras
de ventosas e céus de êxtase plenos,
movendo o homem prende-o nas amarras
de um barco que fundeou na onda de Vênus
- onda em que surge a súmula do belo
e onde ressoa o canto das sereias.
Dessas amarras parte o fio ou elo
de luz que vem buscar as nossas veias.
Rosa, rosa do amor, o amor esfria
se ela não se abre em rosas de outro dia.
XIII
Se ela não se abre em rosas de outro dia
seu existir efêmero é a morte
e nem ao neutro sol da geometria
o que a faz bela não terá suporte.
Falam-nos vozes, vozes do passado;
de quanto amamos queima-nos o fogo;
o coração no peito, aprisionado,
de baque a baque enfrenta a vida, ao jogo
em que se apraz, de impulso contra impulso.
A sermos nós, nós somos o que fomos,
embora pulse em nós um ser avulso
a dar ao nosso ser proibidos pomos.
Cegos podemos ver, surdos ouvimos,
se a tudo cobre o sol do que sentimos.
XIV
Se a tudo cobre o sol do que sentimos,
chegamos mesmo à zona mais sombria
que há em nós, e por nossa, compartimos
em formas, cores, música, poesia.
Cecília a sussurrar seu eu profundo,
Vinicius em seresta ao próprio enterro,
Drummond domando a máquina do mundo,
Darcy buscando em seus acertos o erro.
E assim nos vemos, deslumbrados, bobos,
frente a um Goeldi, Guinard, Santa, Pancetti
ou Portinari; ou quando Villa-Lobos
os sons imersos no seu ser repete.
Se a tudo cobre o sol e ao sol seguimos,
o belo está no belo que já vimos.
XV
O belo vem do sol do que já vimos.
Sentímo-lo, mas como transmiti-lo?
Pisamos ora abismos, ora cimos.
O olhar, ora é inquieto, ora tranqüilo.
Pouco nos toca o inédito e o perfeito,
se a perfeição se erige em templo gasto,
se o inédito a si mesmo está sujeito
além de ser a sua sombra e rasto.
Pouco nos toca a rosa com seu nexo
de pétalas e cor em harmonia,
se não traz de outras rosas o reflexo,
se ela não se abre em rosas de outro dia.
Se a tudo cobre o sol do que sentimos,
o belo está no belo que já vimos.
Afonso Felix de Sousa (1925-2002)
ÍNTIMA PARÁBOLA
1955/1956 LANÇADO EM 1960
Dedicado a Cassiano Ricardo
SONETO I
Ergo as mãos frente a nada, e a meus muitos reclamos
plasma-se o plano infindo onde o inefável erra.
Mas sinto os pés na terra – e vou por onde vamos,
e se penetro o azul mais sinto os pés na terra.
E vou como quem roga a Deus misericórdia
por estar existindo à sua sombra e imagem.
Se me enleva a beleza e ávida a vida morde-a,
eterna faz-se em mim por mais que de passagem.
Vou tudo contemplando, às formas dando forma,
e o meu poder de amar eu jogo e, se amo, ganho.
Terrível poldro, o tempo – eu cavalgo-o sem norma,
de sol a sol tocando um difícil rebanho.
Às bordas de onde sonho ouve-se em pouco um rio
sonâmbulo escultor do seu próprio extravio.
SONETO II
É quanto hoje me cobre, os tetos desmanchados
de um reino que eu sonhara – e era meu, e era tudo.
Eu, que a vida lhe dei como a jogá-la em dados,
findei por ter em câmbio estrelas sem conteúdo.
Cantam quando me calo, impassíveis sereias,
trazendo-me no canto um mar de extintas vozes,
e o reino antes suposto em paragens alheias
projeta em meu andar impulsos de albatrozes.
E ter sempre a envolver-me esses lençóis humanos,
e ver formar-se na alma a escama de alma escrava,
e ir, só por dever ir, por sobre um chão de enganos,
enquanto a ave do tempo o seu bico em mim crava.
Meu reino, ele se funda em meu poder de tê-lo,
e seus tesouros são meu viver a perdê-lo.
SONETO III
Metafísica e amor – em ânsias de anjo implume
tento alcançar, no escuro, as franjas do universo.
Risco um fósforo em Deus e faz-se tudo em lume:
Tudo é visível, tudo, e em desespero imerso.
Guardiões de outro destino empurram minha sombra.
Escuto... e nada tem a dizer-me o silêncio.
Um dragão que não sei se me encanta ou me assombra
dá-me esta força e o olhar que não o vê, mas vence-o.
No outro lado da vida (escuto) a mesma fala
de quem por não ter pão monta em pêlo a esperança.
Metafísica e amor – e quanto em mim se cala!
Quanto de mim espera, apalpa, e não alcança!
Ouvido à terra escuto, escuto-lhe os segredos,
e a última rosa do alto eu esmago entre os dedos.
SONETO V
Quando cheguei ao campo onde pastavam cabras,
fiz que a flauta acordasse uma porção de luas,
roubei ao galo o canto e o bordei com palavras,
e fui pelos vergéis – comigo moças nuas.
Tinha o peso do tempo, eu tinha-o sobre os ombros.
Mas de meu, minha carga oculta em simples odre
Era um mundo a clamar, era o peito entre escombros,
e o fruto que ao comer sentia-o belo e podre.
Ia pelos vergéis... Pisava estrelas, nardos,
praias à luz do amor, vozes que foram de anjo,
mesmo o silêncio em volta e seus quentes leopardos,
tudo que em pensamento à febre e à treva esbanjo.
Tinha um pé na beleza e o outro em Hiroshima.
À cólera da rosa ergui as mãos e a rima.
SONETO IX
O banho ao meio-dia – e tu na praia acesa.
Tu, comandando o mar; oh, tu, pastora de ondas,
fazes, sem o saber, que se acenda a beleza,
e em volta de onde estás eu sinto anjos em rondas.
Brava perturbação de um mar que me repete,
e achega-se a teus pés – mas cantando se afasta.
Guardadora do mar, para que o mar se aquiete
dá-lhe a beber na fonte onde o sonho diz: Basta!
O mar se despedaça e a teus pés... sonha um banho.
E eis o sol a descer sobre a luz que irradias.
Jogo meu coração ao mar e ao céu – e ganho
o arder-me no esplendor que para a tarde guias.
Ante beleza tal – poder, como Rimbaud,
sobre os joelhos tê-la em seu negro maiô.
SONETO XXXVI
Senhor, que a mim de sonho e vísceras fizeste,
e me tens nu, qualquer que seja a minha veste,
sinto, desde que aqui tuas varandas varro,
ter, bem junto a meu corpo, alma também de barro.
É por isso que vou com asas rastejando,
e as plumas de meus pés as perdi não sei quando.
É por isso que pães sabendo a lama como,
quando creio colher em tua mão um pomo.
Tua presença é como a vida, é como açoite,
e vergasta-me sempre, onde quer que me amoite.
Tua presença é luz que tive entre meus braços
e, terrível, mostrou-me os meus próprios pedaços.
Senhor, alma de sóis que dão vida e a consomem,
eu não tenho perdão, eu sou carne, eu sou homem.
Afonso Felix de Sousa (1925-2002)
ÁLBUM DO RIO
1951/1964 LANÇADO EM 1965
ANO DO 4º Centenário do Rio
de Janeiro, dedicado à sua esposa
poeta Astrid Cabral.
DAS ESCRITURAS – 1
OU
PONTEIO DO RECÉM-CHEGADO
Saibam todos que uma porta
fechou-se – e eu por ela entrava.
Saibam que do alto descia
o sol desfeito em luz brava.
Saibam que batia à porta
minha voz, que me chamava,
pois quando entrei, para trás
um pouco de mim ficava.
Saibam todos que a cidade
pedaços meus já tragava,
dando lições à minha alma
de como tornar-se escrava.
- Poeta, aqui corre o leite
que restou de muitas luas.
Hás de estar melhor que em casa
em qualquer das minhas ruas.
A teu encontro em meus mares
virão velozes faluas.
Filhas minhas que sonhares
terás em carne e osso nuas.
Dar-te-ei todas as virtudes
e outras mais que te atribuas.
As chaves de minhas portas
serão todas elas tuas.
- Cidade, se me dás muito,
muito mais meu ser reclama.
Mas antes deixe que eu volte
à minha voz, que me chama,
e traga-a com outros trastes
que não estão no programa.
Tudo o que fui e amei antes
essa voz em mim derrama
com a água dos pensamentos
que me acompanham na cama.
E em ti quer estar inteiro
este que, cidade, te ama.
- Poeta, se repetires
que amas sem que amando estejas,
far-te-ei lamber as entradas
de minhas muitas igrejas
para limpares a boca
de tais palavras sobejas.
Se queres me amar, arranca
do corpo as pernas andejas.
Teu coração traz-me em postas
em uma ou duas bandejas.
Então, quando só meu fores,
me amarás se assim desejas.
- Cidade, venho de longe
e nem sei bem o que quero,
mas ser de alguém totalmente
é coisa que não tolero.
Por seres bela ofereço-te
amor bobo mas sincero,
que o amor se faz de bobagens
e sendo enganoso é vero.
És bela e por teus encantos
muito mais do que sou libero.
Mas o que fui não me roubes
com teu exigir severo.
- Poeta, a entrega é o primeiro
de outros muitos exercícios,
se queres receber a alma
dos cariocas vitalícios.
Entrega-te, e quando achares
naturais meus artifícios,
até aos teus descaminhos
serão os ventos propícios.
Filhas minhas que sonhares
virão cuidar de teus vícios,
e hás de ouvir à minha sombra
Drummond, Cecília, Vinicius.
- Cidade, mas onde a escolha?
Como voltar, se não posso?
A porta está bem fechada
e o teu desejo é o nosso.
Teu sabor de céu e inferno
sinto cada vez mais próximo,
e cada vez mais se apaga
o que fui, feito em destroço.
Quero cantar-te, cidade,
e meu canto é um paradoxo
que tem raízes na terra
enquanto nuvens esboço.
- Poeta, vai, pega a lira
e por aí sai cantando.
Mas segue como um cão dócil
sempre fiel a meu mando.
Não cantes em falsos hinos
meu passado venerando,
nem fiques em odes ocas
a meus encantos, e quando
triste estiveres não chores
mesmo que estejas chorando.
Canta só o que viveres,
sempre fiel a meu mando.
E saibam todos que em volta
de mim fechou-se a cidade.
E saibam todos que preso
respirei a liberdade.
E se uma porta se abrisse,
onde andaria a vontade
de escolher uma outra sorte
ou libertar-me das grades?
Minha vida amores dores
correm no chão da cidade.
Disto, os cantos que se seguem
dão fé e conformidade.
INSTANTÂNEO – 1
Essas imagens amarelecidas, esses rostos
que se desfazem à árida luz do tempo.
Sérios e humildes, esses homens
(chegados de onde?)
da Zona da Mata, ou de Recife,
ou de algum burgo branco e esquecido
no interior de Mato Grosso;
esses homens, eretos
por trás do paletó escuro e da gravata,
aqui posaram um dia,
daqui levando para convencer a si mesmos
e aos conterrâneos, a prova
de sua vinda ao Rio.
Esses pares de noivos, ainda hoje
os trens e lotações dos subúrbios
aos domingos despejam em bandos
no centro da cidade.
E esse sorriso, com que dificuldade
terá sido arrancado a essa criança!
Essas imagens hão de exibir-se para sempre
na montra dos aparelhos antigos,
e como que se refletem nos olhos
dos fotógrafos do Passeio Público.
VISITA AO TÚMULO DE MACHADO DE ASSIS
Aqui venho e virei. À beira
de teu túmulo uma fiandeira
como que me entrega, tecida,
tenuíssima teia – e da vida
mais clara aceitação eu posso
ter, pois do que é teu, meu, e nosso,
por ser um comum atributo,
extraio o que há de seiva e fruto,
e dou, como alimento, à alma,
que come, espanta-se, e se acalma.
Não te trago flores, ó mestre,
nem hinos minha voz campestre
é capaz de erguer a teu nome.
No entanto, mataste-me a fome
da alma, ao me deslindar a estranha
teia de almas que me acompanha.
No entanto, sem sequer pinta-la,
tua voz é que melhor fala
desta cidade onde, por obra
e graça da sorte, soçobra,
e vai existindo, e repousa-
rá o Afonso Felix de Sousa.
DISCURSO NA RUA DO CATETE
Casais que olhais a rua ou as vitrinas
sei que vos tangem sonhos de automóveis
e móveis
Jovens em roda e em pé pelas esquinas
chegam e estudam (são de toda parte)
e partem
Jovens que hoje guiais só as narinas
pensar que do Brasil sereis um dia
os guias
Moças em flor atrás de altas cortinas
filhas de funcionários da República
e públicos
Moças que viestes do Nordeste ou Minas
vós porém não sois públicas e tendes
só dengues
Solares hoje hotéis de amplas latrinas
onde anciãs relembram a batida
da vida
Velhos hotéis que em mornas disciplinas
guardam moças que têm por só apego
o emprego
Palácio em que os salões são oficinas
onde forjaram vãs politiquices
e asnices
Triste palácio de águias tão mofinas
Suas paredes contam de uma História
Sem glória
DESENHO DE DEBRET
Esmaecidos – o ângulo da igreja, a cruz altaneira.
Esmaecidos – o casarão senhorial, os populares, o soldado,
como se fora outro o mundo dou outro Aldo da praça
[pública.
De súbito ergue-se o açoite, ergue-se com dedos inflamados,
que vibram no ar fazendo em volta um vivo colorido.
E há então os escravos que amarrados aguardam o açoite,
e há os já açoitados a lembrarem cadáveres em transe,
e há o escravo que açoita e um dia foi também açoitado,
e usa de toda a força porque um dia será de novo açoitado.
E há, antes de tudo, estas negras nádegas que sangram.
PRAIANA – 1
Na areia, quando o corpo deitas
levanta-se a ilusão de uma ave
que vai pelo ar e em breve corta
o céu de ilhas por mim perdidas,
mas de que tens na mão a chave.
Na areia o teu reino se expande
e chega a meus pés, que a busca-lo
foram por nós amarrados
à proa de um barco sem leme
em mares de íntimos degredos.
Na areia mil fios absurdos
tecem o que me resta de alma.
E em meio a imprecisos despojos
De quanto perdi por ter ganho,
Do seio de uma onda renasço.
PRAIANA – II
Altaneira e ao vento
de pé sobre a Pedra
do Arpoador
doma o espaço e o tempo
doma o mar e a terra
e o meu fervor
Nem sabe que a velo
Nereida impassível
ao guardador
e a apenas dois metros
acima do nível
de um mar de amor
IMPROVISO À MORTE DE ANTÔNIO MARIA
Vivias de ave da noite
e eu vivo de ave do dia.
Por isso nunca nos vimos
em vida, Antônio Maria,
e embora as solidões nossas
às vezes em companhia
uma de outra, um do outro tínhamos
só uma ou outra fatia.
Por isso estranhos soavam-te
versos da minha autoria
e vogando em tuas crônicas
de mim mesmo me fugia
para onde as tuas canções
levam-me a triste euforia.
Numa boate, está claro,
te foste, Antônio Maria.
E assim não me foi possível
ir ver-te como uma elegia.
Mas nas boates da morte
encontram-se a noite e o dia.
E assim lá será possível
encontarmo-nos um dia.
SANGUE NO MANGUE
Ana dos Homens
frente a palmeiras
onde não cantam
os sabiás
De suas cismas
nasce clareira
entre palmeiras
de anos atrás
Ela aos dez anos
subia às grimpas
de alto coqueiro
súbito cai
Mas entre os braços
de homem estranho
que bem podia
ser o seu pai
Ele em silêncio
a põe nuinha
pega-lhe as partes
indo-se então
Aos quinze anos
ela na vida
deitou com homens
em multidão
Mas ao estranho
que a apalpou nua
suas lembranças
eram fiéis
E sempre nele
é que pensava
quando se dava
por cem mil-réis
Ana dos Homens
volta da casa
onde no Mnague
a vida faz
Pela Avenida
Getúlio Vargas
tombam matizes
de um céu lilás
Ana dos Homens
em frente a aurora
e uma navalha
sobre ela cai
Antes de morta
vê um estranho
que bem podia
ser o seu pai
LITANIA
A minha amada mora na Glória.
Como ir à glória? Quem me dirá?
A minha amada mora na Glória.
Falam-me outeiros de onde ela está.
A minha amada mora na Glória.
Todos os bondes passam por lá.
SONETO AO BONDE DO JARDIM DA GLÓRIA
Bonde,
Por
Onde
for.
Ronde
Flor,
Sonde
Cor;
leve
breve
a ela
meu
eu
dela.
Afonso Felix de Sousa (1925-2002)
Veja também:
Dia de Quitanda
- Helena Corte Real
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