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De Amélia Pinto Pais, um preciso cometário sobre a obra, que vale ter, que vale ler.
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Li hoje o novo livro do Fred de Matos,«Anomalias», lançado dia 6 de setembro em Salvador e que vale bem a pena ser lido.
Estou inteiramente de acordo, quer com o que sobre ele se diz no Prefácio,do Fausto Rodrigues do Valle, quer com o texto que ocupa as orelhas do livro , assinado por Eugénia de Campos, que me permito citar:
«O poema «Anomalia» pode ser esse fio (de Ariadne). Vocábulo emblemático pelo lugar central que ocupa e pela sua frequência metafórica, relaciona-se com o motivo da desconstrução do Eu e da busca da identidade. Essa exige o desdobramento, a construção de um duplo. A cisão daí resultante leva por vezes o poeta a um pessimismo niilista como única solução para a contradição da consciência.» (....)
E, mais adiante:
«A música, o amor, ou,de uma forma insensata, o mundo às avessas do carnaval, podem ser respostas para o problema do Eu em busca de si mesmo. Mas a anomalia existencial permanece, latente. E permanece, porque a unidade reencontrada é fugaz e frágil(....).
Por fim, resta a Poesia, o lugar da unidade rencontrada, o espaço de utopia.»
Que acrescentar mais? Que a nostalgia desse Eu e uma melancolia se desprendem com frequência dos versos do Fred, quer na evocação dos sonhos incumpridos, dos amores desencontrados e fugazes, quer no sentido do tempo que passa, inexoravelmente.Cito alguns versos:
«Quem souber me dê notícias
de um certo Fred que fui,
e que não é o mesmo que sou.»
(versos finais do poema Quem souber me dê notícias)
Ou:
«Não, a felicidade não é o riso gratuito,
a gargalhada fútil e fugaz. Pode ser, sim,
um esgarçar das fibras tensas de uma ilusão.
Já não há sonhos que nos una
desde quando me deixei ficar no tempo.
Sentença sua.
Já não chove.
Foi forte e breve como a sua presença.
.Posso abrir a janela.
Ainda há a música:
"The only living boy in New York»,
mas não há sol. O sol, a música,
aríetes dissipando ânimos e desânimo
é uma boa imagem, nem sempre solução.»
(do lindíssimo poema Quando virou borboleta)
Citei alguns dos muitos versos de que gostei.E passo, para finalizar, um poema inteiro, perfeitamente claro na sua brevidade:
O sentido da vida
o sentido da vida,
se é que sentido há,
é passar.
passar como passa a brisa
ou como as vagas do mar,
passar como passa o tempo
saem tempo pra especular
se passa porque existe
ou se existe por passar.
Fica a recomendação.
Amélia Pais
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