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Tinha um fascínio especial pelos vastos espaços abandonados após grandes eventos. Fossem grandes estádios olímpicos, fossem grandes recintos de feiras internacionais, fossem apenas as marcas no chão de terra deixadas por um circo acabado de desmontar...
Aquelas impressões desenhadas no solo, aquelas bancadas vazias, aqueles restos de estruturas faziam-no entrar num átrio colorido e fantasmagórico de percepção. Nesses espaços pressentia sempre uma presença forte de algo ainda vivo. Como se os milhares de vozes, os milhares de corpos que por ali tinham passado permanecessem como um eco profundo, uma substância etérea envolvendo aqueles esqueletos de escombros. Chegava a ouvir de novo o clamor das multidões, o som estridente das bandas de música, os apelos e as informações nos altifalantes e até os ruídos mais íntimos dos passantes ; e numa espécie de abraço formidável sentia de uma só vez os calores do riso, o sabor amargo das derrotas, as lágrimas de tristeza e a exaltação das grandes proezas ...
Desde muito novo que o fascinavam as narrações históricas e conseguia de imediato imaginar visualmente essas façanhas com uma nitidez assombrosa. Era uma tela de cinema que se abria e ele apenas como espectador via o filme a correr na sua mente. E havia sempre sons e cores e chuva dentro da sua fantasia ! Perguntava-se então de onde podiam vir aquelas imagens se nunca as tinha visto antes, se a sua mente permanecia aparentemente silenciosa e parada. Talvez o sopro divino de que falam os poetas - pensava...
Ora aconteceu um dia passar por uma extensa área de terra batida onde há dias se tinha instalado um pobre circo itinerante. Entrou facilmente em sintonia com as vibrações que dali emanavam e pôde gradualmente visualizar o espectáculo em toda a sua extensão. Abrandou a marcha, parou e acabou por sentar-se numa grade de refrigerantes deixada ali, com certeza, pela premência da debandada do circo para outro local.De todo o espectáculo chamou-lhe logo a atenção um rapazinho franzino e moreno que fazia par em vários números, desdobrando-se em palhaço, acrobata, malabarista, domador de feras, animador e vendedor de postais pela assistência. Tinha uns grandes olhos negros e uma mestria em tudo o que fazia que o impressionou.
Acontece que, sem saber porquê, esse rapaz abeirou-se dele e sentou-se a conversar.
Disse chamar-se Paquito e ser cigano de origem andaluza. Tinha fugido naquele circo quando este tinha passado por sua terra natal. Nunca mais soubera de seus pais - ciganos nómadas- e não tencionava voltar àquelas paragens. O seu sonho era aprender a ler para poder estudar filosofia e os livros sagrados de todas as religiões.
- Queres então ser filósofo? - perguntou.
- Sim quero ser mais do que isso, quero perceber tudo - respondeu com ar afirmativo.
- Tudo o quê ? - perguntou sem saber ao que ele se referia.
- Tudo o que faz com que eu esteja a falar contigo sem estarmos juntos fisicamente - retorquiu.
Ficou perplexo e espantado. De facto o rapaz tinha razão. Ele é que não tinha dado conta da estranheza do que se estava a passar tão absorto e mergulhado estava, como de costume, na sua fantasia. Uma semi-lucidez fazia-o pensar ora de fora da conversa ora deixar de pensar e entrar de novo na troca de ideias com o Paquito. Foi assim que, um pouco irritado, lhe perguntou :
- Que fazes tu na minha fantasia. Quem te chamou ?
- Eu ? - retorquiu num gesto de enfado. Eu é que pergunto ! Estava aqui sentado neste banco a pensar nos próximos malabarismos e tu vieste ao meu encontro e começas-te a falar.
- Mas isso não te faz confusão ? Achas natural ? - perguntou já confuso com a sua resposta.
- Não, nada me faz espécie. Eu sei que tudo pode acontecer aos nossos olhos. Sou malabarista, esqueces...
- Sim...percebo. Mas onde estás tu afinal ? - disse para o provocar.
- Eu estou dentro da tua fantasia e tu estás dentro da minha. Só não sei quem nos pôs aqui , um defronte do outro.
- Mas isso já dizia Dante sobre as imagens do Juízo Final ! - espantou-se.
- Não sei quem dizia. Sei que a ciência vai um dia descobrir na matéria a essência divina e que a realidade e a fantasia serão faces de um mesmo prisma. Sei que haverá apenas uma religião - a vontade e a ânsia de conhecimento da humanidade que a levará sempre mais além...
- Falas como um sábio teólogo cristão que eu conheço - retorquiu espantado com tanta sabedoria.
- Não sei de quem falas. O que digo é apenas o que sinto - já te disse que não sei ler.
Sei apenas fazer com que os objectos apareçam e desapareçam à frente do público e com isso vou ganhando a vida. Gostaria de aprender mais truques mas para isso preciso de ler os grandes livros - disse o rapaz com voz decidida.
- Achas que neles encontrarás a chave para o que procuras ? - indagou.
- Talvez. Afinal o que são as religiões e as filosofias senão escolas de malabarismos ? - disse peremptório.
- Então achas que o Universo é um grande circo ? - perguntou a medo.
- O Universo é como um trapézio que vai e vem nos dois sentidos entre a noite e o dia.
- Entre o nada e o tudo ? - acrescentou com presunção propositada.
- Sim pode ser - respondeu o Paquito secamente.
- E quem vai no trapézio ? E nós onde estamos ?
- No trapézio vão aqueles que sabem voar. A humanidade e toda a criação fazem de rede cá em baixo. Mas uma rede muito especial...
- Especial porquê ? - indagou com curiosidade crescente.
- Porque em vez de servir para amparar os que caem serve para impulsionar os que querem subir lá para cima.
- E são muitos esses ?
- São os necessários para fazer o trapézio andar...- disse já com enfado.
A comunicação foi-se perdendo. Já não havia condições, pensou, para que a sua fantasia funcionasse. Aos gritos ainda lhe perguntou :
- E qual é o fim último desse trapézio ? Não poderão todos um dia subir para ele ao mesmo tempo ? E depois o circo deixa de existir ?
Um ruído intenso e inesperado interferiu definitivamente com a conversa e deixou de o ver e ouvir. Um camião do lixo estava parado ao seu lado recolhendo os detritos espalhados pelo chão. Após o susto daquela presença, que quase o ia atropelando, levantou-se para que pudessem levar a grade de bebidas onde se sentara.
Já de regresso a casa, cabisbaixo, ouviu a voz do condutor dirigindo-se aos restantes :
- Vocês viram este ... A falar sozinho no meio deste descampado ! Ele há cada maluco nesta terra !
E quando notou que ele abrandava a marcha ainda gritou bem alto:
- Vai trabalhar malandro ! Drogado de uma figa !...
...
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