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| Palavra de Mestre |
- Comunicação às
Jornadas Culturais / Literárias 2000 «Imagens de Deus na Literatura
Portuguesa nos séc.XIX e XX» – Auditório da Escola Superior de
Tecnologia e Gestão – Leiria, 15 e 16 de Março de 2001
da
Escola Secundária de Francisco Rodrigues Lobo, de Leiria
«Pertenço
a uma geração que herdou a descrença na fé cristã e que criou em
si uma descrença em todas as outras fés. Os nossos pais tinham ainda
o impulso credor, que transferiam do cristianismo para outras formas
de ilusão. Uns eram entusiastas da igualdade social, outros eram
enamorados só da beleza, outros tinham a fé na ciência e nos seus
proveitos, e havia outros que, mais cristãos ainda, iam buscar a
Orientes e Ocidentes outras formas religiosas, com que entretivessem a
consciência, sem elas oca, de meramente viver. Tudo
isso nós perdemos, de todas essas consolações nascemos órfãos.
Cada civilização segue a linha íntima de uma religião que a
representa: passar para outras religiões é perder essa, e por fim
perdê-las a todas. Nós
perdemos essa, e às outras também. Ficámos,
pois, cada um entregue a si próprio, na desolação de se sentir
viver. Um barco parece ser um objecto cujo fim é navegar; mas o seu
fim não é navegar, senão chegar a um porto. Nós encontrámo-nos
navegando, sem a ideia do porto a que nos deveríamos acolher.
Reproduzimos assim, na espécie dolorosa, a fórmula aventureira dos
argonautas: navegar é
preciso, viver não é preciso. Sem
ilusões, vivemos apenas do sonho, que é a ilusão de quem não pode
ter ilusões. Vivendo de nós próprios, diminuímo-nos, porque o
homem completo é o homem que se ignora. Sem fé, não temos
esperança, e sem esperança não temos propriamente vida. Não tendo
uma ideia do futuro, também não temos uma ideia de hoje, porque o
hoje, para o homem de acção, não é senão um prólogo do futuro. A
energia para lutar nasceu morta connosco, porque nós nascemos sem o
entusiasmo da luta.(....) (...).
O que vivemos foi em negação, em descontentamento e em desconsolo.
Mas vivemo-lo de dentro, sem gestos, fechados sempre, pelo menos no
género de vida, entre as quatro paredes do quarto e os quatro muros de
não saber agir.
Livro
do Desassossego
por Bernardo Soares. (frag.195)
1. Ao aceitar abordar a questão religiosa em Fernando Pessoa, a pedido do meu amigo e colega Dr. António Gordo, da Comissão Científica destas Jornadas, não pude deixar de colocar-lhe e de me colocar algumas reservas e perplexidades face ao tema proposto. É que, em primeiro lugar, e sem negar a importância que têm os conteúdos e linhas de sentido de um texto, o meu apreço pela obra de Pessoa se faz sobretudo do ponto de vista estritamente literário /poético e não do ponto de vista dos conteúdos ideológicos / filosóficos que encerra («Era eu um poeta estimulado pela filosofia e não um filósofo com faculdades poéticas», escrevia ele, por volta de 1910); por outro lado, sentia confusamente, do pouco de que me pudera aperceber até aí, que o problema de saber até que ponto Fernando Pessoa era um homem religioso, ele que se confessou uma vez, em 1935,em Nota Biográfica, «cristão gnóstico», ele que em tanto eus diferentes se projectara e se fizera poeticamente, ele que se quisera também um «indisciplinador de almas» — era tarefa algo ingente para o pouco tempo disponível que era o meu, tarefa mais adequada a uma tese de doutoramento em vários volumes e a preparar durante alguns anos. Sentia também, e verifiquei-o posteriormente quando meti mãos à obra, que não era muita a bibliografia existente sobre esta complicada problemática. Assim:— como iria eu descobrir em tão pouco tempo o Pessoa nos vários Pessoa(s)? No Pessoa Caeiro, António Mora, Ricardo Reis, adeptos de teorias visando a reconstrução de um neo-paganismo de base helénica, mas também no Pessoa ortónimo de poemas simbolistas e quase místicos (alguns esotéricos e iniciáticos) e num Pessoa-Campos de poemas igualmente quase místicos como os Dois excertos de Odes, o Magnificat ou o «Afinal a melhor maneira de viajar é sentir»?E o Pessoa de Mensagem? – o do «Deus quer, o homem sonha, a obra nasce» , o do misticismo nacionalista corporizado no mito (que «é o nada que é tudo») de D.Sebastião, o «Encoberto», adivinhado por Bandarra ou António Vieira, o da «divina loucura», sagrado, como o Infante Santo ou o Infante D.Henrique, por Deus, para ser portador do Sonho construtor de Quintos Impérios ainda não concretizados? De um desafio se tratava, pois, para mim, o de tentar encontrar pelo menos esboço de resposta para tantas interrogações. É desse esboço de resposta que trago, hoje e aqui, as linhas principais e as muitas interrogações que, certamente no final, vos ficarão. Vejam-no apenas como esboço, como uma introdução ao problema.
Vou seguir de perto o que pude aprender na pouca bibliografia específica existente e, principalmente, em António Quadros, Fernando Pessoa-Vida, personalidade e génio (ed. D.Quixote, Lisboa,2ªed.,1984), em Dalila Pereira da Costa, O Esoterismo em Fernando Pessoa (ed.Lello & Irmão, Porto, 2ªed.,1978), em alguns capítulos de Teresa Rita Lopes in «Pessoa por conhecer»(Estampa, Lisboa, 1990) e nos estudos de Yvette Centeno, ligados igualmente às questões do esoterismo, hermetismo e iniciação na poesia de Pessoa.E também, naturalmente, da minha reflexão pessoal. E, principalmente ainda, na minha interrogação inacabada.
2. Algumas coordenadas para o conhecimento de Fernando Pessoa:
2.1 Fernando Pessoa foi baptizado e educado em criança dentro dos parâmetros da religião católica; existe um documento dele, datado de 1907 (tinha o poeta 19 anos), dirigido ao pároco da freguesia em que fora baptizado, em que contesta o facto de o terem baptizado quando «ainda ente irracional», obrigando-o «a fazer parte de uma associação demasiado humana com as teorias da qual o seu raciocínio mais viril talvez não queira concordar»; no mesmo documento considerava a igreja católica «poderosa e estúpida, sustentando a velha hipótese d’um Deus criador, eminentemente estúpido e eminentemente mau» [1]
2..2. Em 1915, em carta dirigida em 6 de dezembro a Mário de Sá Carneiro, confessava- se em crise profunda, derivada de ter tido que traduzir várias obras de teosofia. Cito: «Tive de traduzir livros teosóficos. Eu nada, absolutamente nada, conhecia do assunto. Agora, como é natural, conheço a essência do sistema. Abalou-me a um ponto que eu julgaria hoje impossível, tratando-se de qualquer sistema religioso. O carácter extraordinariamente vasto desta religião-filosofia; a noção de força, de domínio, de conhecimento superior e extrao-humano que ressumam as obras teosóficas, perturbaram-me muito. Cousa idêntica me acontecera há muito tempo com a leitura de um livro ingçês sobre Os Ritos e os Mistérios dos Rosa-Cruz. A possibilidade de que ali, na Teosofia, esteja a verdade real me “hante”.(-...) E mais adiante: « Ora, se V.meditar que a teosofia é um sistema ultra-cristão — no sentido de conter os princípios cristãos elevados a um ponto onde se fundem não sei em que além-Deus e pensar no que há de fundamentalmente incompatível com o meu paganismo essen - cial, V. terá o primeiro elemento grave que se acrescentou à minha crise. Se depois reparar em que a Teosofia, porque admite todas as religiões, tem um carácter inteiramente parecido com o do paganismo, que admite no seu panteão todos os deuses, V. terá o segundo elemento grave da minha crise de alma. A Teosofia apavora-me pelo seu mistério e pela sua grandeza ocultista, repugna-me pelo seu humanitarismo e apostolismo (...), atrai-me por se parecer tanto com um «paganismo transcendental (...) É o horror e a atracção do abismo realizados no além-alma...» Convém esclarecer aqui que a teosofia, literalmente «sabedoria divina» ou «dos deuses» é uma teoria que se situa como síntese de filosofia, religião e ciência, apelando para a intuição e faculdades não racionais e declarando a identidade do Homem com a Realidade e o seu consequente poder de conhecer a Finalidade, a Meta, que se chama Deus. Vários intelectuais europeus do tempo de Pessoa se deixaram tocar por esta teoria, reactivada sobretudo a partir da actividade de Helena Blavatsky, uma das fundadoras e principal expoente da Sociedade Teosófica em Nova Iorque, em 1875. Fernando Pessoa traduziu, entre outras obras teosóficas, A Voz do Silêncio, obra essencial de Blavatsky. No entanto, a teosofia vem de muito antes e, nomeadamente de Platão e Plotino, para não falar das diversas correntes místicas e do próprio idealismo alemão.
2.3. Também por essa altura, em célebre carta à tia Anica, confessa sentir-se com características de mediunidade e desenvolve práticas de espiritismo, reveladoras, juntamente com o interesse pela teosofia, pelos Rosa-Cruzes e o seu gosto e prática da numerologia e da astrologia, o seu pendor para o oculto, que viria a aprofundar-se nos anos finais da sua vida.
2.4 Em 1935, ou seja, no último ano da sua vida, confessa-se, na já referida Nota biográfica,
no ponto Posição religiosa:
«Cristão
gnóstico, e
portanto, inteiramente oposto a todas as igrejas organizadas, e
sobretudo à Igreja de Roma. Fiel, por motivos que mais adiante estão
implícitos, à Tradição Secreta do Cristianismo, que tem íntimas
relações com a Tradição Secreta em Israel (a Santa Cabala) e com a
essência oculta da Maçonaria» e «Iniciado, por comunicação
directa de Mestre a Discípulo, nos três graus menores da
(aparentemente extinta) Ordem Templária de Portugal» Compreende-se a sua autodefinição como gnóstico, dado pretender ser a a gnose o conhecimento esotérico e perfeito da divindade, que se transmite por meio da tradição e mediante rituais de iniciação. [2] Tal iniciação tê-la-á conseguido o poeta não pela sua integração na Maçonaria ou noutras associações secretas e ocultistas, mas pela reflexão e estudo e pela experiência poética , que, segundo Jung « aflora de regiões profundas da alma, salutares e benéficas, preexistentes à segregação das consciências individuais, e que, a partir desse regaço colectivo, seguiram os seus passos dolorosos. Brota dessas regiões onde todos os seres vibram ainda, em uníssono, e onde consequentemente a sensibilidade e a acção do 9indivíduo valem para toda a humanidade.» [3]
2.5 Como última destas coordenadas, em carta do mesmo ano a Adolfo Casais Monteiro, diz-se não mação e opina sobre o Ocultismo, dizendo «não acreditar na comunicação directa com Deus, mas, segundo a nossa afinação espiritual, poderemos ir-nos comunicando com seres cada vez mais altos»; define também, na mesma carta, 3 caminhos para o Oculto, o mágico, o místico e o alquímico, considerando o último «o mais perfeito de todos, porque envolve uma transmutação da própria personalidade que a prepara».
3. Um conhecimento contemplativo de Deus:
Traçadas as coordenadas principais, a nível do pensamento religioso de Fernando Pessoa, pondo, para já, de parte a longa teorização e defesa do Neopaganismo português, atentemos nalguns textos reveladores daquilo que podemos considerar ser o seu percurso poético /religioso, na busca do Conhecimento ou Gnose:
Por volta de 1912, tinha o poeta então 24 anos, e no mesmo ano em que publicava na «Águia» os seus primeiros artigos sobre a moderna poesia portuguesa, surge-nos um texto belíssimo intitulado «Prece» que passo a transcrever: Prece:«Senhor,
que és o céu e a terra, e que és a vida e a morte! O sol és tu e a
lua és tu e o vento és tu! Tu és os nossos corpos e as nossas almas
e o nosso amor és tu também. Onde nada está tu habitas e onde tudo
estás - (o teu templo) - eis o teu corpo. Dá-me
alma para te servir e alma para te amar. Dá-me vista para te ver
sempre no céu e na terra, ouvidos para te ouvir no vento e no mar, e
mãos para trabalhar em teu nome. Torna-me
puro como a água e alto como o céu. Que não haja lama nas estradas
dos meus pensamentos nem folhas mortas nas lagoas dos meus
propósitos. Faz com que eu saiba amar os outros como irmãos e
servir-te como a um pai. [...] Minha
vida seja digna da tua presença. Meu corpo seja digno da terra, tua
cama. Minha alma possa aparecer diante de ti como um filho que volta
ao lar. Torna-me
grande como o Sol, para que eu te possa adorar em mim; e torna-me puro
como a lua, para que eu te possa rezar em mim; e torna-me claro como o
dia para que eu te possa ver sempre em mim e rezar-te e adorar-te. Senhor,
protege-me e ampara-me. Dá-me que eu me sinta teu. Senhor, livra-me
de mim.»
-
[4]
Este
texto, em que António Quadros encontra, a meu ver com razão, ecos do
Hino ao Sol do faraó monoteísta Akhenaton
e afinidades com os
cantos de S.Francisco de Assis
[5]
, marca, segundo o mesmo
autor, o «1ºmarco de uma
longa e árdua peregrinação», revelando «toda
uma vivência interior de transcendência que reúne a visão do ser
humano, entre o animal e o espiritual».Nele é visível «uma
enorme exigência de pureza e de Absoluto, um sentimento de
adoração, a consciência
profunda da vanidade egolátrica, um desejo de entrega e de
abandono no divino»,
traduzindo, igualmente, «o efeito
de uma experiência íntima, secreta.»
Pouco depois desta «Prece», em 1913, tinha então 25 anos,
parece o Poeta ter tido uma primeira experiência de revelação, de
êxtase quase místico, como afirma Quadros. Trata- - se do poema em 5
partes, Além-Deus.
Na 1ªparte,
Olho o Tejo, e de tal arte
Que me esquece olhar olhando,
E súbito isto me bate
De encontro ao devaneando —
O que é ser rio e
correr?
O que é está-lo eu a ver?
Sinto de repente
pouco,
Vácuo, o momento,
o lugar.
Tudo de repente é oco —
Mesmo o meu estar a pensar.
Tudo — e o mundo em seu redor —
Fica mais que
exterior.
Perde tudo o ser,
ficar,
E do pensar se me some.
Fico sem poder ligar
Ser, ideia, alma de nome
A mim, à terra e aos céus...
E
súbito encontro Deus..
a
realidade visível do Tejo e do olhar o Tejo some-se, abre-se para o
invisível, o vácuo, como ele diz,«súbito»,
«de repente» ,
condição em que como numa aparição
[6]
«súbito
encontr(a) Deus».
Todos podemos reconhecer nesta experiência relatada poeticamente ecos
da «noite escura da alma»
do poeta místico espanhol S.Juan
de La Cruz... Na
2ºparte de Além-Deus, o poeta procura explicar como tudo se passara:
Passou (título da
2ªparte): «Passou, fora de
Quando,/De Porquê, e de Passando...»; na 3ªparte,
intitulada A Voz de Deus,
reconhece na percepção do indizível, a fusão total do Eu e do
universo a partir da audição da voz de Deus:
«Brilha
uma voz na noute..
De dentro de Fora
ouvi-a .
Ó
Universo, eu sou-te..../»
E
mais adiante:
«Cinza de ideia e de nome
Em mim, e a voz: Ó
mundo,
Sermente em ti eu sou-me...
Mero eco de mim, me inundo
De
ondas de negro lume
Em que pra Deus me afundo.»
Este
inundar-se em Deus equivale à Queda
(título do 4ºpoema da série)
«Da minha ideia do mundo
Caí...
Vácuo além de profundo,
Se ter Eu nem Ali.»
Tal
queda/mergulho no inefável, no indizível é o encontro do Além-Deus
.
«Além-Deus! Além Deus!
Negra calma ..
Clarão de Desconhecido...
Tudo tem outro sentido, ó alma,
Mesmo o ter-um-sentido...»
O
5º e último poema, de título de ressonância esotérica
( e surrealista) – Braço
sem corpo brandindo um
Gládio – «é o regresso
à realidade quotidiana, lugar da dúvida, da interrogação, do
espanto, da incapacidade de aferir, pela razão humana, aquilo que por
instantes envolveu o ser inteiro, deixando atrás de si um sentimento
de irrealidade»
[7]
— conclui assim o poema:
«Deus
é um grande Intervalo,
Mas entre quê e quê?...
Entre
o que digo e o que calo
Existo? Quem é que me vê?
Erro-me...»
Em 1914, nova série de poemas— Os
Passos da Cruz (curiosa
a imagística que é a mesma da Paixão de Cristo – atingir o saber,
o conhecimento, será cumprir, como em qualquer ritual iniciático, os
passos da cruz em subida a um qualquer Calvário? Será a queda
necessária ao atingir do Graal, da revelação?)
[8]
– a morte de «anima».
Trata-se, como sabemos, de uma série de 14 sonetos, de que convém
destacar os sonetos X —
Aconteceu-me
do alto do infinito Esta
vida.
Através de nevoeiros, Do
meu próprio ermo ser fumos primeiros, Vim
ganhando, e através estranhos ritos
De
sombra e luz ocasional, e gritos Vagos
ao longe, e assomos passageiros De saudade incógnita, luzeirosDe
divino, este ser fosco e proscrito... Caiu
chuva em passados que fui eu. Houve
planícies de céu baixo e neve Nalguma
coisa de alma do que é meu.
Narrei-me
a sombra e não me achei sentido Hoje
sei-me o deserto onde Deus teve Outrora
a sua capital de olvido...
—
os
sonetos XI e XIII, em que o Poeta se vê como emissário,
simples executor de algo que lhe é ditado (por quem? – por oculta
mão? , por um rei desconhecido?) de reminiscências notoriamente
neoplatónicas
O
último poema da série termina
com «E Deus, a Grande Ogiva ao fim
de tudo» Vejamos:
Pessoa
parece reconhecer em Deus a meta
– em carta a Armando Cortes Rodrigues, datada de 19.1.1915,
escrevia: «você é, como eu,
fundamentalmente um espírito religioso»
e mais adiante, referindo-se à solidão de sentir
alguém que se «adiantou de mais
aos companheiros de viagem » a viagem que, segundo diz, acha«tão
grave» porque é uma viagem
«entre almas e estrelas, pela Floresta dos Pavores...e
Deus, fim da estrada infinita, à espera no silêncio da
Sua grandeza...»
Podemos
então talvez concluir como Quadros e Dalila Pereira da Costa, que
entre 1912 e 1915 o Poeta, reconhecendo-se explicitamente como «espírito
religioso» terá tido uma experiência de conhecimento
contemplativo, quase de contacto
místico, não
racional, portanto, com o grande Intervalo, com Deus.
Só bastante mais tarde, a partir de 1932, tal experiência viria a
repetir-se, como veremos.
4.
A
busca da unidade perdida:
o neopaganismo /
Mestre Caeiro
Nos
anos seguintes, foi a vez da uma
busca de respostas outras ao problema: — sou
múltiplo, sou plural como o Universo.-
Como reencontrar a Unidade
perdida? Como ultrapassar o conflito /divisão entre o que
sou e o que me sonho, entre o que sonho e o que faço, entre «a
lealdade que devo /À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real
por fora/E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por
dentro»?
[9]
Penso que esta terá sido porventura a questão fundamental de
Pessoa e dos seus «desassossegos» existenciais...
É este o período fecundo das tentativas neopagãs
(e de toda a teoria do neopaganismo português – uma
«Igreja» de que se fazem eco e «evangelistas» o filósofo António
Mora, mas também Ricardo Reis e o próprio Pessoa).Nessa nova Igreja
,
[10]
Cristo é apenas mais um deus no panteão e
como tal aceite por Reis; o que é intolerável é que os cristãos o
afirmem como único; se a natureza é plural, como conceber um
panteão que não o seja?. Cristo, a existir, será o Deus- Criança,
a «Criança Nova», a
«Criança eterna»
do Poema VIII de O Guardador de Rebanhos de Caeiro (ele próprio, o
Mestre, o que «não era pagão,
era o paganismo», segundo o discípulo porventura mais
amado e mais rebelde, Campos) – a criança surgida em sonho, fugida
do Céu e das roupagens míticas de que o revestiram, e vindo morar na
casa do Outeiro /«adormecendo» na alma do Poeta, não sem antes o
ter ensinado a ver — e se ter comportado como criança:
«Esta é a história do
meu Menino Jesus – conclui o poeta
- Por que razão que se perceba/Não há-de ser ela mais
verdadeira/Que tudo quanto os filósofos pensam /E tudo quanto as
religiões ensinam?»
O mesmo Menino Jesus-Caeiro, que afirma não acreditar em
Deus.«Não acredito em Deus
porque nunca o vi./Se ele quisesse que eu acreditasse nele,/Sem
dúvida que viria falar comigo /E entraria pela minha porta dentro
/Dizendo-me, Aqui estou !
[11]
Uma religião, afinal, panteísta, a deste Mestre Caeiro, que
parece recusar a visão do transcendente, mas absolutiza o real como
se Deus fosse tão somente o real, as coisas da natureza. Um pouco
como nas filosofias orientais, mas, ainda que o não parecendo, muito
próxima da visão de S. Francisco no Cântico das Criaturas....Dando
a sua resposta, afinal – a da sua completa a perfeita comunhão com
o real, recusando conhecê-lo pelo pensamento (afinal: pensar
é não compreender, pensar é estar doente dos olhos, pensar incomoda
como andar à chuva...). Poderemos, ainda aqui, falar de
misticismo de outro tipo
– o misticismo panteísta de fusão com a natureza; por ele Sujeito
e Objecto fundem-se e encontram a Unidade.
Mas Caeiro morreu cedo, como, de certo modo, inviável era «aprender
a desaprender», recuperar a inocência da criança que vê
tudo como se fosse pela primeira vez ou da ceifeira e da sua alegre
inconsciência de não saber como a «ciência
pesa tanto e a vida é tão breve!» e por isso «canta
sem razão»
[12]
— e com a sua morte prematura morreu
também um pouco a teoria/igreja neopagã:
— Mora, o assumidamente filósofo, reduz-se ao silêncio;
— Reis assume o seu epicurismo triste, o «colhe
o dia porque és ele»,
o «abdica e sê rei de ti
próprio», tristemente, ou antes, desconsoladamente, dando
conselhos, a meu ver pouco convictos, refugiando-se num cepticismo de
escola («Assim talvez os deuses /
Para si o não sejam, / E só de serem do que nós maiores / Tirem o
serem deuses para nós //
Seja qual for o certo, / Mesmo para com esses / Que cremos
serem deuses, não sejamos / Inteiros numa fé talvez sem causa»)
[13]
; digamos que ele é um «pagão
triste da decadência», como a última imagem que quer
conservar de Lídia, sua apaixonada virtual.
— Quanto a
Pessoa, o ortónimo, aquele de quem Campos diz que «seria
um pagão se não fosse um novelo embrulhado para o lado de dentro»
[14]
atingirá, de certo modo, confundindo - se
com Campos, na parte final da vida, o êxtase que entrevira em 1912 a
1915;
—
Campos será sempre, e passada a fúria sensacionista do querer
ser toda a gente e toda a parte
[15]
, o mais
desassossegado de todos, encontrando a paz e a verdade
possíveis apenas no sonho de epopeias marítimas triunfais sem sair
nunca do «cais deserto»,
imagem e sombra do Cais absoluto e arquetípico ,
de reminiscência ou anamnese
platónica
[16]
- atingirá, porém, e talvez em resposta ao
seu desassossego e à sua busca, finalmente, e de novo, a alegria de
encontrar Deus, ou em todo o caso, o Sagrado e a plenitude
em textos como Magnificat
e no Sursum Corda!
de Afinal a melhor maneira de
viajar é sentir...
Como
diz Dalila Pereira da Costa, «o
paganismo como idade da humanidade, forma e visão
do cosmos e apreensão do mundo, ser-lhe-ia revelado e dado a
participar por directa experiência pessoal, em instantes que,
abolindo milénios de afastamento, tal uma prodigiosa anamnese, o
poeta consignou em Dois excertos de Odes, Passagem das Horas, Afinal a
melhor maneira de viajar é sentir
[17]
... Aí, pela sua intuição poética, pelo
seu dom de visionário, ele teria o poder, tal como Holderlin, de
realizar uma ressurreição vivida dessa idade, em toda a sua
verdadeira alma, e dela participar. Aí o cosmos surgir-lhe-ia em toda
a sua antiga e eterna sacralidade.»
É esse, a seu ver, o verdadeiro sentido do neopaganismo de
Pessoa.Com efeito, o sentido do mistério perpassa nesses poemas, onde
é visível, como nos poemas orrtónimos «Silvos
ou gnomos tocam?» ou «Passos
tardam na relva»,
[18]
em que pequenos seres míticos são
pressentidos.
5.
«
Caminhos
para o oculto»:
Chegamos,
neste ponto, ao tratamento daquilo que Quadros designa de caminhos para
o oculto. Segundo ele, Pessoa experimentou ou tentou, melhor dizendo, três
caminhos de aproximação do Mistério, tantas vezes pressentido ou
entrevisto. Seriam eles o caminho
gnósico da percepção
e visão supranormal, da imaginação, do sonho, da mediunidade, da
reminiscência anamnésica platónica, da permeabilidade ao
inconsciente colectivo ou arcaico, ou das iluminações
[19]
, inspirações e contactos de ordem mística.
A segunda via, segundo Quadros, seria o caminho
sófico – reflexão metafísica associada à cultura
erudita; depois do clarividente, o pensador, o intelectual, o erudito,
o que raciocina exaustivamente. Finalmente, a via ou caminho
iniciático, presente em poemas esotéricos conhecidos como
Na sombra do Monte Abiegno, Do
Vale montanha`,A Múmia,
Iniciação, Eros Psique, No túmulo de Christian Rossencreutz.
Estes poemas têm sido exaustivamente analisados, quer por Dalila
Pereira da Costa, quer por Yvette Centeno, e remeto para tais estudos
aprofundados os meus queridos e pacientes ouvintes.
Na sombra do Monte Abiegno:
— o Monte Abiegno é a Montanha que une os planos terrestre e
celeste, desafio ao homem que aspira pelo Absoluto. A imagem do cavaleiro-monge,
como a do Castelo, ambas de
ressonâncias medievais, é a do cavaleiro solitário que busca «por
ínvios caminhos» o seu Graal – a Verdade
[20]
Mais importante ainda é o conjunto de poemas A
Múmia, também cronologicamente o primeiro destes poemas
esotéricos. Segundo Yvette Centeno, assistimos nesta poesia cifrada
«a um percurso espiritual,
iniciático (em que se confirma a morte da alma) e a uma revelação.
O poeta desce progressivamente dentro de si mesmo, separa-se de toda a
realidade material e espiritual, fica reduzido à própria espinha, ao
osso, à pura essência; e obtém no fim a revelação sobre a qual
nada diz...»Tal percurso «é
pontuado por uma absorção no Inconsciente, pela constatação da
morte de Anima e pela depuração do Eu até à fixação na própria
espinha, terminando de chofre com a enigmática substantivação «As
espadas». As espadas equivaleria ao fogo dos filósofos,
sendo também um atributo dos iniciados templários e rosa-cruzes, o
que leva Centeno a interrogar-se: «Que
concluir daqui? Que a revelação das espadas equivale à revelação
simultânea, à «abertura, aqui» da porta do Entendimento e da
beleza? Experiência que coroa a realização do homem, do poeta.»
A experiência alquímica visa, segundo Mirciade Eliade,
«transmutar o homem; pela iniciação, o místico mudava de regime
ontológico (fazia-se imortal). A transmutação, o opus magnum, que
conduzia à pedra filosofal. obtém-se fazendo passar a matéria por 4
graus ou fases, entre as quais a
nigredo e putrefactio,
ou morte iniciática (....).»
Os poemas mais claramente iniciáticos de Pessoa são os já
referidos «Iniciação», «No túmulo de Christian Rossencreutz» e
ainda o de certo modo enigmático «Gomes Leal».Detenhamo-nos um
pouco mais sobre o primeiro:
Iniciação
Não
dormes sob os ciprestes, Pois
não há sono no mundo.
......
O
corpo é a sombra das vestes Que
encobrem teu ser profundo.
Vem
a noite, que é a morte E
a sombra acabou sem ser. Vais
na noite só recorte, Igual
a ti sem querer.
Mas
na Estalagem do Assombro Tiram-te
os Anjos a capa. Segues
sem capa no ombro, Com
o pouco que te tapa.
Então
Arcanjos da Estrada Despem-te
e deixam-te nu. Não
tens vestes, não tens nada: Tens
só teu corpo, que és tu.
Por
fim, na funda caverna, Os
Deuses despem-te mais. Teu
corpo cessa, alma externa, Mas
vês que são teus iguais.
......
A
sombra das tuas vestes Ficou
entre nós na Sorte. Não
estás morto, entre ciprestes.
......
Neófito,
não há morte.
Só despindo-se, pela desnudação, o poeta encontra a
verdadeira vida/unidade: por isso, «neófito,
não há morte».Para o conseguir é preciso, porém
atingir o fundo do poço, da caverna onde a verdadeira vida e a
verdadeira verdade, passe a redundância, se encontram. O
corpo nada mais é que invólucro pesado e obstáculo de que é
necessário despojar-se. Como
escreve Dalila Pereira da Costa:
«.
Aqui o neófito renasce, depurado
para outra vida, nessa caverna regeneradora, centro das forças do
mundo e do eu, da energia primeira: sua matriz. Novo ciclo de
existência se lhe abre: a dos deuses, «pois aí vês que são teus
iguais». Aqui se termina a transmutação suprema, tal outra
operação alquímica, que é a morte. Por esses estados sucessivos se
ultrapassou, ou largou, a natureza humana e se adquiriu a natureza
celeste, matéria última, incorruptível e eterna. Iniciação poderá ser visto semelhantemente como uma purificação, numa alquimia do corpo humano. Por essa destruição, combustão de todos os elementos acidentais, exteriores, agarrados ao seu núcleo, central e incorruptível, fazer que este por fim, liberto e único, brilhe na caverna, a última etapa do trabalho interior: como a «matéria-prima». Nesse cadilho alquímico, ela será a obtenção final do diamante incorrupto, ou «Lapis Philosophorum». O ser primordial e eterno, o que um dia caiu do infinito, e que aqui sobre a terra, é o proscrito. Fechando assim agora o círculo, este poema, como «exitus», será o segundo e complementar movimento desse outro (como linha ascensional numa mesma onda), que surgiu na sua juventude, e em semelhante ambiente de mistério iniciático: os Passos da Cruz»
Da iniciação resulta também a desgraça, a tristeza e a solidão, como parece entrever- - se no poema Por que Ó Sagrado (datado de 1932):
Por que, ó Sagrado, sobre a minha vidaDerramaste
o teu verbo? Por que há- de a minha partidaA
coroa de espinhos da
verdade Antes
eu era sábio sem cuidados, Ouvia
a tarde finda, entrar o
gado E
o campo era solene e primitivo Hoje
no meu ser sou o escravo Só
no meu ser tenho de a ter
o travo, Estou
exilado aqui e morto vivo.
Maldito
o dia em que pedi a ciência! Mais
maldito o que a deu, porque me a deste! Que
é feito dessa minha inconsciência Que
a consciência, como um traje, veste? Hoje
sei quase tudo e fiquei triste...
[21]
Sei
a verdade, enfim, do Ser que existe, Prouvera
a Deus que eu não soubesse tanto!
6.
O
retomar da experiência de êxtase:
Novas experiências místicas vão surgir, no entanto, a partir desse mesmo ano – e o êxtase dos primeiros tempos, de Além - Deus, surge em Magnificat, de Álvaro de Campos:
MAGNIFICAT
(7-11-1933)
Quando
é que passará esta noite interna, o universo, E
eu, a minha alma, terei o meu dia? Quando
é que despertarei de estar acordado? Não
sei. O sol brilha alto, Impossível
de fitar. As
estrelas pestanejam frio, Impossíveis
de contar. O
coração pulsa alheio, Impossível
de escutar. Quando
é que passará este drama sem teatro, Ou
este teatro sem drama, E
recolherei a casa? Onde?
Como? Quando? Gato
que me fitas com olhos de vida, quem tens lá no fundo? É
esse! É esse! Esse
mandará como Josué parar o sol e eu acordarei; E
então será dia. Sorri,
dormindo, minha alma! Sorri,
minha alma, será dia!
Trata-se,
na opinião de Quadros, de «um
cântico de assunção e êxtase», «momento de apaziguamento –
consolado, repousado, gratificado. Porque, contemplado em êxtase,
Esse lho terá concedido.» . Confirma-se,
assim, a opinião já referida de Dalila Pereira da Costa de que: «Deus
em Pessoa não é um conceito, uma noção teórica nem um ideal
abstracto. Sua ideia de deus
não é racional. Ele é uma
realidade conhecida por experiência directa. Uma realidade
eminentemente viva, como o Deus vivo da Bíblia, o mesmo que todos os
grandes espirituais conheceram.(...) Não procuremos tão pouco no seu
pensamento um Deus de feição moral. O
seu deus é o dos
contemplativos, conhecido e revelado no amor e na liberdade.
A salvação aqui não é dada através dos méritos e das obras
próprias, mas pela união sagrada
com Deus. É nela que
estará o homem justificado.»
Vemo-lo
também lendo, em
vésperas de Natal de 1934, e ainda com Álvaro de Campos, a 1ª
Epístola aos Coríntios:
Ali
não havia electricidade. Por
isso foi à luz de uma vela,mortiça Que
li, inserto na cama, O
que estava à mão para ler — A
Bíblia, em português (coisa curiosa), feita para protestantes. E
reli a «Primeira Epístola aos Coríntios». Em
torno de mim o sossego excessivo de noite de província Fazia
um grande barulho ao contrário, Dava-me
uma tendência do choro para a desolação. A
«Primeira Epístola aos Coríntios»... Relia-a
à luz de uma vela subitamente antiquíssima, E
um grande mar de emoção ouvia-se dentro de mim... Sou
nada... Sou
uma ficção... Que
ando eu a querer de mim ou de tudo neste mundo? «Se
eu não tivesse a caridade.» E
a soberana luz manda, e do alto dos séculos, A
grande mensagem com que a alma é livre... «Se
eu não tivesse a caridade..» Meu
Deus, e eu que não tenho a caridade!---
Em Magnificat
reencontra-se Campos / Pessoa consigo mesmo, com a Unidade. Tal
unidade, conseguida pelo contacto directo com o Absoluto, é também,
no entender de Quadros e nosso, prosseguida e conseguida
no poema «A melhor
maneira de viajar é sentir». Nele
se afirma:
Quanto
mais eu sinta, quanto
mais eu sinta como
várias pessoas Quantas
mais personalidades eu tiver Quanto
mais intensamente, estridentemente as tiver, Quanto
mais simultaneamente sentir como todas elas, Quanto
mais unificadamente diverso, dispersamente atento, Estiver,
sentir, viver, for, Mais
possuirei a essência total do universo, Mais
completo serei pelo espaço inteiro fora Mais
análogo serei a Deus, seja ele quem for, Porque,
seja ele quem for, com certeza que é tudo, E
fora d’ Ele há só Ele, e tudo para Ele é pouco...
E
mais adiante:
Cada
alma é uma escada para Deus Cada
alma é um corredor-Universo para Deus, Cada
alma é um rio correndo para as margens do Externo Para
Deus e em Deus com um sussurro soturno.
—
E, se assim é, o convite:— Sursum
corda!
Sursum
corda! Erguei as almas! Todo
o Mistério é Espirito (...)
O
Poeta, cuja alma é corredor -
Universo para Deus explode em cânticos de louvor –
«reparo para ti e sou todo
um hino!» e
pede:
Ocupa
de toda a tua força e de todo o teu poder quente Meu
coração a ti aberto! Como
uma espada trespassando meu ser erguido e extático, Intersecciona
com meu sangue, com a minha pele e os meus nervos, Teu
movimento contínuo, contíguo a ti próprio sempre.
É
que, afirma: Sou
uma chama ascendendo, mas ascendo para baixo e para cima, Ascendo
para todos os lados e ao mesmo tempo, sou um globo de
chamas explosivas buscando Deus e queimando A
crosta dos meus sentidos, o número da minha lógica A
minha inteligência limitadora e gelada.
E
o poema prossegue: — Oferece-se como dinamismo poderoso, tendo
integrado em si «todos os
movimentos que compõem o universo, a fúria minuciosa e dos átomos,
a fúria de todas as chamas, a raiva de todos os ventos, a espuma
furiosa de todos os rios» e dizendo: «Sou
um formidável dinamismo obrigado ao equilíbrio De
estar dentro do meu corpo, de não transbordar da minh’alma»
O
poema termina, com o poeta dirigindo-se a essa força cósmica (Deus?)
dizendo : «Ruge,
estoira, vence, quebra, estrondeia, sacode (...) Sê
com todo o meu corpo todo o universo e a vida, (...) Sobrevive-me, em minha vida, em todas as direcções!»
7.
As
questões que ficam:
E
aqui está, como neste sensacionismo assumido se retoma e se
esclarece, ganhando nova
luz, o «Já viram Deus as minhas
sensações». de Passos
da Cruz.
Concluiríamos assim que também (ou sobretudo?) a sensação
é força propulsora da
caminhada do cavaleiro-monge em direcção ao Monte Abiegno ou a Deus,
a Grande Ogiva?
Que Caeiro – o sensacionista dos sensacionistas, o porventura
talvez mais whitmaniano (indo para além do próprio Whitman, de
resto) – seria também uma via para Deus, para o Absoluto, para a
fundamental unidade?
São perguntas que ficam. Eu
nada sei – ou quase nada. Apenas me interrogo – e interrogo;
como Pessoa me sinto – ou gostaria de me sentir e ser –
indisciplinadora de almas, levando-as a interrogarem-se.
Em todo o caso, e como esboço
de uma conclusão, sempre
provisória, reforço, parece-- me poder concordar com a
opinião expressa por Murillo Nunes de Azevedo, um teósofo
brasileiro, em texto intitulado:
Fernando Pessoa Teósofo:
[22]
«Fernando
Pessoa é, por excelência, o poeta do transcendentalismo. Sua poesia
pode ser igualada à de Wiliam Blake. É densa, atingindo zonas do
inconsciente, só reveladas aos místicos, aos profetas
[23]
» O
mesmo autor aproxima a criação dos heterónimos da teosofia: «Ao
criar, do modo como o definiu, quase em êxtase,
[24]
os heterónimos, o poeta mergulhava cada vez
mais nas raízes do próprio Ser. Recebia então a comunicação
directa das camadas
profundas do inconsciente
colectivo comum a todos os homens (...)A intuição é a visão
directa da realidade, sem intermediários.»
Talvez «isto» que
agora vos li seja tão só um
muito pequeno e tímido começo para uma reflexão mais
pessoal e mais profunda. Minha e de todos vós. Com a certeza de que
são bastante ínvios os caminhos para captar o
Pessoa detrás de todos os fingimentos e de todos os
Pessoa (s).
Peço desculpa pela extensão do meu texto – era, porém,
difícil fazê-lo mais breve.
É que só é capaz de ser
sintético quem domina muitíssimo bem e vê claramente um problema.
O que não é, decididamente, e por enquanto, o meu caso.
Para além de tudo o mais, dizia Camões, dirigindo-se à
Canção: «E
se acaso / te culparem de
larga e de pesada, «Não pode ser – lhe dize - limitada / a água
do mar em tão pequeno vaso »...
Termino
como comecei, com referência ao homem de todos os desassossegos,
Bernardo Soares, relembrando as suas palavras desconsoladas:
«Pertenço
a uma geração que herdou a descrença na fé cristã e que criou em
si uma descrença em todas as outras fés. Os nossos pais tinham ainda
o impulso credor, que transferiam do cristianismo para outras formas
de ilusão. Uns eram entusiastas da igualdade social, outros eram
enamorados só da beleza, outros tinham a fé na ciência e nos seus
proveitos, e havia outros que, mais cristãos ainda iam buscar a
Orientes e Ocidentes outras formas religiosas, com que entretivessem a
consciência, sem elas oca, de meramente viver. Tudo
isso nós perdemos, de todas essas consolações nascemos órfãos.
»
Leiria,
Fevereiro e Março de 2001
Amélia
Pinto Pais
[1]
documento
publicado por Teresa Rita Lopes in pessoa
por conhecer, ed.Estampa, Lisboa, 1990-2ºvolume, p.79.
[2]
A
gnose radica na
experiência humana da divisão e cisão entre Sujeito e Objecto, o
Eu e o mundo, o Eu e Deus, que é, como sabemos, vertente
fundamental do «Eu plural» de Pessoa.
[3]
Jung, in«Poesia e Psicologia» [4] in Página Íntimas e de Auto-interpretação. Ática, Lisboa,1966
[5]
A ligação de Caeiro com o Cântico das Criaturas e também como o
«De Rerum Natura» de Lucrécio é abordada exaustivamente no livro
de Maria Helena Nery Garcez, Alberto
Caerio,’Descobridor da
Natureza?Centro de Estudos Pessoanos, Porto,1985. Igualmente
é interessante ver as relações de Caeiro com o taoísmo e o Zen,
abordadas por Leyla Perrone Moisés no seu livro F:Pessoa,
Aquém do Eu,além do Outro (Martins Fontes, S.Paulo, 1982.
[6]
e nós a lembrarmo-nos de Vergílio Ferreira... [7] Quadros, op.cit. [8] O tema da queda é «dogma» comum às diferentes «seitas»gnósticas
[9]
Tabacaria-poema
de 1928
[10]
esta equiparação do neopaganismo a nova Igreja com mestre,
evangelistas e discípulos é colhida no livro já cit. de Teresa
Rita Lopes
[11]
em espécie de paráfrase ao Jesus de O Suave Milagre, de Eça?
[12]
Do
poema ortónimo Ela canta,
pobre ceifeira...
[13]
ode Meu gesto que destrói
[14]
in Notas para a recordação
do meu mestre Caeiro
[15]
Ode Triunfal
[16]
Ode Marítima
[17]
todos poemas de Campos, note-se...
[18]
poemas
datados de 1914 e de 1933 respectivamente, o que parece provar a
persistência do sentido do Mistério, do sagrado
[19]
no sentido simbolista que lhe dá Rimbaud
[20]
busca
de que se não conta o desfecho – que em Antero fora de
frustração: silêncio e
escuridão...e nada
mais- foi o que encontrou no« palácio encantado da
ventura» [21] Em Antero:«Conheci a Beleza que não morre /E fiquei triste» [22] dado a conhecer pela Internet (www.cfh.ufsc.br/~magno/teosofiaepessoa.htm) [23] nós acrescentaríamos com Jung e Novalis: e aos poetas [24] recordemos a célebre carta sobre a origem dos heterónimos, de 1935.»Num dia em que finalmente desistira – foi em 8 fde Março de 1914 – acrequei-me de uma cómoda alta, e tomando um papel, comecei a escrever, de pé, como escrevo sempre que posso. E escrevi trinta e tal poemas afio, numa espécie de êxtase cuja natureza não conseguirei definir. Foi o dia triunfal da minha vida e nunca poedrei ter outro assim.(...)
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