Palavra de Medico
Palavra de Cineasta

“O caçador de imagens é o cego de nascença, que, súbito, vê.”

(Tirésias - Mista / madeira de EDUARDO POLA)

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Alguns anos antes de levar uma camera ao ombro e com ela mirar o mundo, muito antes de fazer cinema profissionalmente, escrevi essa frase. Era então um estudante apaixonado pelo cinema, freqüentador de cineclubes,

leitor de manuais de filmagem, autor de versos capengas sobre o objeto de meu desejo: filmes.

Mas as imagens não existiam ainda e a imaginação - talvez contraditoriamente - se expressava em palavras. Imaginar. “Imaginado por”. Sempre achei o crédito “dirigido por” inapropriado para um criador cinematográfico. Um filme é imaginado antes de existir, assim como é imaginado durante sua realização. 

Antever imagens, realizar imagens. Exibi-las finalmente e ver o imaginado despertar novas imaginações - a dos espectadores. 

Nós, os realizadores, somos todos cegos quando chegamos ao set de filmagem. Estão ali os atores vestidos e maquiados, a equipe técnica à espera, o cenário montado, a camera preparada, os refletores acesos. Há muita luz e estamos cegos. Até que, por alguma divina complacência, uma imagem surge em nossa mente e saímos todos, alucinados, em busca de guardar numa camera essa fugaz visão.

Também os espectadores somos todos cegos quando nos sentamos numa sala de cinema. Diante de nós uma tela branca e as trevas de um mundo que ainda não existe. As imagens que se projetam não alteram nossa cegueira senão quando tocam esse olho inconsciente virado para dentro de nós mesmos. É quando subitamente nos vemos - e vemos o mundo.

Mas convém não subestimar as palavras. 

Sim, o cinema é uma arte visual. Mas é sobretudo uma arte narrativa. É certo que filmes puramente visuais já foram feitos e expressões como os video-clipes abrem caminhos nessa direção. Mas o cinema como fato cultural planetário está baseado na narrativa. Ele se constrói sobre as bases estabelecidas há séculos na Poética de Aristóteles, e está ainda muito distante da visualidade de um artista como Picasso.

Impossível, ainda, rasgar a cartilha grega. Impossível, ainda, pensar numa cultura puramente sensorial. Queremos sentir - e queremos pensar. E queremos falar o que sentimos e pensamos. Inclusive sobre filmes.

Há, por certo, filmes minuciosamente pensados para nos fazer não pensar - nesse sentido o mainstream de Hollywood vem se empenhando ardorosamente. Apelando para uma sensorialidade superficial, anestesia a sensibilidade e promove a cegueira coletiva. 

Outros filmes há, felizmente. Não menos poderosos e muito mais generosos. Que vimos e não poderemos nunca esquecer. Eisenstein, Ford, Fellini, Kurosawa, Glauber, artistas de continentes diferentes, pacientemente nos propondo a eterna novidade do velho ser humano em seu mundo em transformação. 

Esses geniais artistas realizaram a delicada operação de nos deixar cegos para melhor vermos. Com eles descobrimos que imagens, palavras e sons são instrumentos do nosso humano sonho de compreender a vida.



Sergio Rezende
Rio, 01.julho.2002

 


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