Ensaios & Críticas
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ESTUDOS LITERÁRIOS

Concretismo - Ensaio Histórico:

A investigação da polissemia na concretização do poema.

 

 

INTRODUÇÃO:

O principal objetivo deste estudo, foi adquirir maiores conhecimentos com relação ao movimento literário "Concretismo", para tanto busquei informações através de um Ensaio Histórico, comparando informações entre Movimento e acontecimentos da época. Observando no poema concreto, a utilização da polissemia como um dos recursos mais utilizados na sua concretização.

 

CONCRETISMO - ENSAIO HISTÓRICO

No mesmo ano da queda do Estado Novo e do fim da Guerra Mundial, a cultura brasileira ganha novos rumos. A redemocratização, que inaugura o país a era dos partidos, repercute na atividade intelectual. Ao longo dos anos 50, a política passa a permear nossa produção cultural. Na esfera do Estado, surgem órgãos próprios para pensar nossos problemas ( como o Instituto Superior de Estudos Brasileiros, ISEB, criado em 1955); na esfera militar, a crescente participação em nível de gerência ganha expressão em estudos teóricos, promovidos pela Escola Superior de Guerra; na esfera da Igreja, desenvolve-se um trabalho de reorganização, criação de "agências nacionais" (como a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, CNBB, de 1957) e de unidades leigas de apostolado (Ação Católica), de que alguns intelectuais serão porta-vozes. O primeiro marco do novo período que se abre em 1945 foi a chamada "geração de 45" composta de jovens poetas, quase todos estreantes nesse ano, como Ledo Ivo (Ode e Elegia), Jorge Medauar (Chuva sobre a Tua Semente), Antônio Rangel Bandeira (Poesias), ou próximo dele , como João Cabral de Melo Neto (Pedra do Sono, 1942), Marcos Konder Reis (O Tempo da Estrela, 1948). Essa geração de poetas foi marcada, na sua maioria, pelo formalismo, pela tônica da "arte pela arte", talvez como uma maneira de reagir  à crescente  politização da cultura. 

Retomavam a metrificação, o ritmo clássico, o rigor formal-procedimentos que haviam sido desprezados pelos modernistas de 1992. Embora representasse uma volta à disciplina métrica, a nova poesia não renunciava às conquistas do Modernismo, chegando a incorporar o verso livre. Influenciada pelas vanguardas internacionais ( o New Criticism e o formalismo de Ezra Pound e T. S. Eliot, nos EUA), nossa produção poética oscilava entre a "arte pela arte" - expressa, por exemplo, no Concretismo, que subordinava o conteúdo à forma - e o engajamento político  marcante  na poesia de João Cabral de Melo Neto, que, segundo Alfredo Bosi, seria a figura-síntese da geração de 45, enveredando, desde a publicação de "O Cão sem Plumas", em 1950,  por um caminho de compromissos sociais. Esse itinerário seria confirmado em "Morte e Vida Severina" (1955). A poesia de João Cabral de Melo Neto, freqüentemente voltada para os temas regionalistas, funde vanguardas internacionais, como o Surrealismo ( presente no jogo de imagens díspares, comum em sua obra: "De sua Formosura/deixai-me que diga:/é tão belo como um sim/numa sala negativa") e as dissonâncias da música atonal (que marca a sonoridade "dura" de seus versos: " E se encorpado na tela, entre todos,/ se entretendo para todos, no toldo/a manhã que plana livre de armação"). Com seu verso despojado, onde os adjetivos e substantivos abstratos ( como "tristeza", por exemplo) eram cada vez mais escassos João Cabral criou a poesia pétrea e cortante, feita de substantivos concretos: "Na vila da Usina/é que fui descobrir a gente/que as canas expulsaram/das ribanceiras e vazantes" (O Rio). O outro poeta importante, Ledo Ivo, representava uma vertente mais lírica e intimista da mesma geração, como fica explicito na sua "Ode e Elegia": "Quero a noite, não a que passa mas a que fica sempre,/para ser, no vasto espaço, meu sonho de criança".

A vertente mais formalista da nova poesia foi constituída pelos concretistas, que em 1957, lançaram seu "Manifesto" no Jornal do Brasil, complementando-o no ano seguinte com "Plano Piloto para Poesia Concreta". Os principais representantes dessa corrente foram os Irmãos Haroldo e Augusto de Campos, Décio Pignatari, José Lino Grünewald e Ferreira Gullar. Segundo os concretistas, seria impossível fazer poesia fora das estruturas tradicionais da língua, usando as palavras como objetos concretos, graficamente considerados. Assim a sintaxe (Ordem das palavras na frase) tradicional poderia ser abolida e o aspecto material das palavras (tamanho e forma da letra, cor etc.) juntamente com seu suporte (cor do papel, espaço gráfico etc.) e o seu sentido ganhariam a dimensão de "produtores de impacto poético". "A função da poesia concreta não é (...) desprover a palavra de sua carga de conteúdos, mas sim utilizar essa carga como material de trabalho em pé de igualdade com os demais materiais", declarava Haroldo de Campos em 1957. Preocupados com a "função poética da forma". Os concretistas se dedicariam também à tradução e à análise formal das obras literárias, chamando a atenção para os procedimentos de criação de alguns luminares das vanguardas internacionais como Joyce, Maiakóvski. Ezra Pound e Guimarães Rosa. A tônica no "poema-objeto" levou os concretistas a fazerem poesia com outros elementos, além da palavra (o poema Pássaro, de Ferreira Gullar, se constitui de uma caixa de madeira, com tampa de vidro, que "aprisiona" um papel onde está escrito a palavra "pássaro"). Essa corrente iria influenciar artistas plásticos, como Volpi.

Ao lado dessas manifestações, os grandes poetas das gerações anteriores - Carlos Drummond de Andrade, Murilo Mendes, Joaquim Cardoso, Vinicius de Moraes, Manuel Bandeira e Jorge de Lima - prosseguiam sua obra, abrindo-se às novas tendências. "Á medida que envelheço vou me desfazendo dos adjetivos", escreveria Drummond, denunciando uma aproximação com João Cabral. Vinicius de Moraes, com "Poemas, Sonetos e Baladas" (1946) também parecia " retornar às fontes clássicas", em versos " povoados de ecos camonianos", enquanto Jorge de Lima publicava, em 1952, o livro "Invenção de Orfeu".

"O poeta concreto não volta a face às palavras, não lhes lança olhares oblíquos: vai direto ao seu centro, para viver e vivificar sua facticidade. O poeta concreto vê a palavra em si mesma - campo magnético de possibilidades - como um objeto dinâmico, uma célula viva, um organismo completo, com propriedades psico-físico-químicas, tacto antenas circulação coração: viva. (...) A poesia concreta opõe um novo sentido de estrutura, capaz de, no momento histórico, captar, sem desgaste ou repressão, o cerne da experiência humana poetizável" (Augusto de Campos).

 

"A INVESTIGAÇÃO DA POLISSEMIA NA CONCRETIZAÇÃO DO POEMA"

Uma das principais característica do poema concreto é o "apelo à comunicação não-verbal", sendo o que o torna "rico" em significados, e traz ao leitor inúmeras possibilidades de leitura e interpretação, a polissemia assume um papel fundamental para a concretização do poema.

 

Alfredo Bosi em "História Concisa da Literatura Brasileira", coloca o seguinte:

 

"Na medida em que o material significante assume o primeiro plano, verbal e visual, o poeta concreto inova em vários campos que se podem assim enumerar:

a.) no campo semântico: ideogramas (apelo à comunicação não-verbal", segundo o Plano-Piloto cit.); polissemia, trocadilho, monsense...;"(p.530)

 

Luiz Antonio Sacconi, escreve em "Nossa Gramática" - teoria, o significado de "polissemia":

 

"A polissemia é a propriedade de uma palavra adquirir multiplicidade de sentidos, que só se explicam dentro de um contexto. Trata-se realmente de uma única palavra, que abarca grande número de acepções dentro do seu próprio campo semântico.." (p.392)

 

Vejamos agora a relação desta teoria, com o poema concreto:  

 

 

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(Augusto de Campos)

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A polissemia utilizada no poema concreto, assume a propriedade de adquirir multiplicidade em si e por si. Adquirindo novos sentidos conforme o campo de leitura (horizontal, vertical e também através da transposição das letras na mesma palavra).

 

Na primeira parte (composição), temos as palavras ovo/novelo que se entrelaçam assumindo:

 

Traz em si o essencial para a formação de algo novo = ovo

novelo

princípio para a formação de = ovo

recipiente, bola de fio enrolado para a confecção de = ovo

abriga a preparação de = ovo

 

A palavra "ovo" é uma multiplicidade das letras existentes na palavra "novelo", e que dentro da propriedade "polissemia" adquire os mesmos sentidos.

 

Na segunda "parte" do poema, se, multiplicarmos a palavra "soletra", vamos ter = sol, letra, estrela. A palavra "soletra" mais uma vez assume a propriedade de adquirir multiplicidade em si e por si, com o mesmo sentido concreto:

O significado de uma palavra, pode ser inúmeros de acordo com a interpretação do leitor. Mas lembrando que Sacconi, coloca o seguinte: "A polissemia (...) Trata-se realmente de uma única palavra, que abarca grande número de acepções dentro do seu próprio campo semântico".

forme palavras = letra

soletra

forme universo = estrela

forme luz, conhecimento = sol

Na terceira parte do poema temos: terremoto/temor/morte e termometro.

abalo sísmico = temor

terremoto

movimento do interior da terra que resulta no aparecimento de grandes crateras = morte

indica certas condições físicas e morais = termometro 

 

Na quarta parte do poema temos: motor/torto/morto.

composição de peças, encaixadas em formas tortuosas = torto

motor

tudo que dá impulso, se estiver paralisado, desligado, inerte, sem brilho, 

sem atividade, extinto, apagado, seco, murcho, encerrado = morto

 

CONCLUSÃO

Após a elaboração de um Ensaio-Histórico com relação ao Movimento Literário Concretismo, posso concluir da seguinte maneira, "No mesmo ano da queda do Estado Novo e do fim da Guerra Mundial a cultura brasileira ganha novos rumos. A redemocratização, que inaugura no país a era dos partidos, repercute na atividade intelectual. Ao longo dos anos 50.

A vertente mais formalista da nova poesia foi constituída pelos concretistas, que em 1957, lançaram seu "Manifesto" no Jornal do  Brasil. Os principais representantes dessa corrente foram os irmãos Haroldo e Augusto de Campos, Décio Pignatari e outros. Segundo  os concretistas, seria possível fazer poesia fora das estruturas tradicionais, da língua, usando as palavras como objetos concretos, graficamente considerados."

A investigação da polissemia na concretização do poema, é de suma importância para a compreensão do mesmo, pois a polissemia utilizada no poema concreto assume propriedade de adquirir multiplicidade em si e por si. Adquirindo novos sentidos conforme o campo da leitura (horizontal, vertical e também através da transposição das letras na mesma palavra), verifiquei esta afirmação, aplicando-a em um poema concreto de autoria de Augusto de Campos, as palavras "objeto-concreto" do poema, em uma única palavra, abarca grande número de acepções dentro do seu próprio campo semântico e dentro da própria palavra utilizada para a composição do poema, se a "polissemia é a propriedade de uma palavra adquirir multiplicidade de sentido, que só se explica dentro de um contexto", o poema concreto se utiliza de palavras que adquirem multiplicidade dentro de si mesmas, formando sentidos, que só se explicam dentro das mesmas palavras formando assim seu contexto. O poeta consegue ir mais "além", de acordo com a teoria "A polissemia (...). Trata-se realmente de uma única palavra, que abarca grande número de acepções dentro de seu próprio campo semântico". No poema concreto uma única palavra, consegue formar outras palavras que possuem o mesmo campo semântico, e que se explicam dentro do seu próprio contexto.


BIBLIOGRAFIA

BOSI, Alfredo, História Concisa da Literatura Brasileira, ed. Cultrix -São Paulo.

FARACO & MOURA, Língua e Literatura, Editora Ática - São Paulo.

SACCONI, Luiz Antonio, Nossa Gramática - Teoria - Editora Atual - São Paulo.

TUFANO, Douglas, Estudos de Literatura Brasileira, Editora Moderna - São Paulo – 1980

 

INTERNET

 

http://www.mac.usp.br/exposicoes/00/aconceitual/exposicao/poesia/

http://www.unicamp.br/iel/cedae/cedae-fmpc.html

http://www.uol.com.br/augustodecampos/poemas.htm


ESTUDOS LITERÁRIOS

Concretismo - Ensaio Histórico:

A investigação da polissemia na concretização do poema.

Professora Maria Inês Simões

http://www.avbl.com.br 
http://www.ipoesia.hpg.ig.com.br 
http://www.ipad.hpg.ig.com.br 



 

 


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