Palavra de Poeta
De Prosa em Prosa...a Gente se entende.

....

Sei que eu não devia passar tanto tempo a olhar para os horizontes nublados dos livros. Fixar-me nas palavras que correm atrás de algum sentido, deparar-me com o espanto estampado nos silêncios, surrealismo, ficção... bússolas que indicam várias direções e alguma opinião tentando ressalvar o que não tem ressalvas. Mas é assim que me realizo. Como me disse alguém esta semana: “Sou feliz entre livros e papéis”. Acredito. O tocar dos cílios é um verdadeiro êxtase interior. Há uma potencialidade de emoção contida no corpo que é desencadeada em cada conclusão. O pensamento fica meio paralisado e a felicidade explode em milhões de átomos e estrelas. 

Não foi assim a origem do mundo? Um tocar de cílios. Faíscas explosivas por todos os lados. E ainda hoje fecho os olhos cada vez que um mundo novo se faz visível nas páginas dos livros. Montanhas movem-se de lugares, árvores se curvam e estrelas ressurgem porque os mundos continuam a ser inventados e os leitores podem prosseguir no exercício de ser feliz ou a enlouquecerem na mais profunda paz. 

Mas se tudo é tão bom e natural por que digo, no início deste texto, que não devia me debruçar sobre os horizontes dos livros? Explico. Nós que temos uma boa relação com a palavra nos habituamos com essa felicidade clandestina, já escrita e reescrita por Clarice Lispector. E, sem querer contrariar a autora, felicidade quando transformada em hábito perde sua potencialidade. Cada vez que alguma coisa nos incomoda corremos para os livros. É como se tivéssemos descoberto a moradia da felicidade. E não adianta alguém nos agredir, difamar ou jogar qualquer peso da humanidade sobre nossos ombros. Conhecemos o caminho. E na primeira instabilidade batemos na porta daquela casinha branca e vamos nos acomodando ao prazer, ao estado de graça. Talvez fosse o estado ideal se não nos tornássemos tão auto-suficientes, egoístas e, muitas vezes, menos sensíveis.

Não há nada mais perigoso do que ser feliz sempre. As pessoas freqüentemente felizes nem sempre se sensibilizam com a dor de terceiros. Não se empenham tanto em ajudar o outro porque está muito voltada para seu bem estar. Não, não estou falando para alguém especificamente. Estou falando para mim que, por acaso, estou feliz. Cretinamente feliz. Fico contemplativa a olhar os horizontes de dentro. E não quero mais nada, e não peço mais nada. Fico como aqueles fumantes que fazem caracóis com a fumaça do cigarro. Como não fumo, faço caracóis com as palavras. Aliás, faço das palavras minha casa de caracol, sem me dar conta do que está acontecendo do lado de fora do mundo. E o mundo exterior pode continuar se corrompendo, pode me lançar dardos que continuarei com essa cara de quem tem algum segredo e não conta. Essa cara de quem tem pacto com o mar, com os pássaros e com a lua. Essa cumplicidade com livros e papéis. 


Lucilene Machado

Grupo Lunas&Amigos

 

 


Envie esta página para alguém especial.

Instituto da Palavra - Poesia Eternamente

© 2002 Instituto da Palavra e Poesia Eternamente - Todos os direitos reservados