Oficina da Palavra
Cultura em Foco

 

 

Considerações gerais

 

Carlos Drummond de Andrade publicou, em 1930, a obra "Alguma Poesia". Nessa época, fim da primeira e início da segunda geração do Modernismo, já havia rompido definitivamente com os traços parnasiano-simbolistas e cultivava o poema-piada, o coloquialismo e a poesia do cotidiano.

 

Costuma-se, aliás, dividir a poesia drummondiana em três fases:

 

a) a do "eu maior que o mundo", em abrange a poesia irônica: os problemas, embora divisados, estão distantes e se verifica um sentimento contido que culmina num texto que pende para o objetivo, seco e de versos curtos;

 

b) a do "eu menor que o mundo", quando exalta a poesia social: os temas são voltados para a política, a guerra e o sofrimento, tornando imperativas a solidão e a impotência; e,

 

c) a do "eu igual ao mundo", em que fala mais alto uma poesia metafísica por um processo de interrogações e negações que conduz ao vazio e ao desencanto.

 

Em Alguma Poesia, o "eu maior que o mundo" é marcante, de modo que Drummond expõe os sentimentos utilizando-se, pode-se dizer, de um humor amargurado e, ao se voltar para os fatos rotineiros, transcende o tempo e o espaço em busca do perene e do universal.

 

A obra, por sua vez, pode ser dividida em cinco partes, como sugere o próprio Drummond:

 

a) a que ressalta o indivíduo ("um eu todo retorcido") e sua formação e a respectiva visão de mundo, caracterizada pela lucidez com que distingue os fatos pela ironia ou amargor, pessimismo ou humor;

 

b) a que evidencia a família ("a família que me dei") e sua vivência interiorana, mineira, e suas relações pessoais, além do tempo que escoa por entre os dedos que dá voz ao saudosimo e remete à infância;

 

c) a que traz à tona o conhecimento amoroso ("amar-amaro"), empregando, para tanto, ironia, humor e algum idealismo;

 

d) a que retrata as paisagens e viagens vistas e vividas, além da constatação das influências recebidas do primeiro mundo; e,

 

e) a que contempla a mudança dos tempos, o progresso e a mudança na paisagem de outrora.

 

Em poucas palavras, pode-se afirmar que Alguma Poesia, primeira obra de Drummond, dedicada a Mário de Andrade e compreendendo 49 poemas, marca o fim da primeira e início da segunda geração do Modernismo e tem como características marcantes o prosaísmo, o rompimento com a tradicional pontuação, a repetição de vocábulos, a paródia, o humor, a linguagem simples e telegráfica e a exaltação da paisagem cotidiana e, por vezes, bucólica, mas sempre concreta.

 

E é no contexto dessa obra que está inserido o poema "Infância", que passa a ser analisado de agora em diante.

 

 

Análise do poema propriamente dita

 

Antes de tudo, o poema:

 

Infância

 

A Abgar Renault

 

Meu pai montava a cavalo, ia para o campo.

Minha mãe ficava sentada cosendo.

Meu irmão pequeno dormia.

Eu sozinho menino entre mangueiras.

lia a história de Robinson Crusoé,

comprida história que não acaba mais.

 

No meio-dia branco de luz uma voz que aprendeu

a ninar nos longes da senzala – nunca se esqueceu

chamava para o café.

Café preto que nem a preta velha

café gostoso

café bom.

 

Minha mãe ficava sentada cosendo

olhando para mim:

- Psiu... Não acorde o menino.

Para o berço onde pousou um mosquito.

E dava um suspiro... que fundo!

 

Lá longe meu pai campeava

no mato sem fim da fazenda.

 

E eu não sabia que minha história

era mais bonita que a de Robinson Crusoé.

 

 

Em "Infância", Drummond, como é de se esperar da fase de transição entre a primeira e a segunda gerações do Modernismo, não se preocupa com o rigor estético. Todo o poema se dá em versos livres, carregado de repetições de pronomes possessivos e verbos no pretérito imperfeito do indicativo, trazendo amalgamada uma série de subentendidos que passarão a ser trabalhados de agora em diante.

 

O título, em primeiro lugar, ressalta o tema que será tratado, a infância, a meninice, o tempo em que o eu lírico morava no campo e via o pai sair para campear, a mãe costurar e o irmão menor dormindo no berço; o tempo em que lia sob as mangueiras sentindo o cheiro do café preparado pela empregada, a preta velha.

 

Já na primeira estrofe, há o delineamento da família nuclear, representada pela figura do pai, da mãe e do irmão menor. Observe-se que, ao pai, num prisma semântico, estão subentendidas as tarefas de provimento da família aliada à não convivência próxima com os filhos e, por via de conseqüência, há o domínio do espaço externo.

 

Em outras palavras, a figura paterna, como bem afirma Belmira Magalhães (1997), é vista de dentro para fora: da casa para o mato, e a partir do filho para o pai.

 

Assim, torna-se evidente uma distância espacial e afetiva Meu pai montava a cavalo, ia para o campo. // Lá longe meu pai campeava / No mato sem fim da fazenda. Daí afirmar-se pela carência da comunicação no núcleo familiar: o pai campeava e o menino lia sob a sombra das mangueiras.

 

Atente-se, ainda, que o pai, embora visto de longe, aparece sempre ligado à idéia de movimento, pois que campeava, montava a cavalo.

 

No segundo verso, surge a figura materna: Minha mãe ficava sentada cosendo. Ao contrário do pai, que tinha o mundo à sua volta e se perdia no mato sem fim da fazenda, a mãe se revela no seio do lar como condutora das atividades domésticas: cose, cuida do menino pequeno.

 

Ao contrário do pai, também, atribui-se à conduta materna uma passividade calculada, ela se limita a ficar sentada cosendo, a tocar o mosquito do berço e a chamar a atenção do eu lírico para que não fizesse barulho e acordasse o menino.

 

Além disso, o eu lírico se refere em duas passagens à tarefa da costura executada pela mãe, de modo que se pode imaginar, tanto pela repetição quanto pelo emprego da locução verbal ficava sentada, que se tratava de uma atividade rotineira, habitual, constante.

 

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Ou seja, já é possível delinear o percurso do dia vivido (ou vivenciado) pelo eu lírico: ele ficava com a mãe, em casa, enquanto o pai saía a cavalo para o campo. A mãe, no entanto, limitava-se a coser, o irmão a dormir e a solidão, portanto, vai tomando corpo. E é exatamente a isso que o eu lírico se refere no quarto verso: Eu sozinho menino entre mangueiras.

 

Fala-se em mangueiras e não em "árvores" e tal observação possui um caráter bastante importante, pois que o eu lírico, ao empregar a espécie em lugar do gênero, revela que desde a mais tenra idade era capaz de enxergar os pequeninos fatos, acontecimentos, numa sensibilidade epifânica e dolorida, talvez.

 

Essa afirmação pode ser confirmada pelos dois últimos versos da primeira estrofe, quando se verifica que o eu lírico, à sombra das mangueiras, lia a história de Robinson Crusoé, / comprida história que não acaba mais. Para tanto, emprega o verbo "acabar" no presente do indicativo, demonstrando que, tal como constatou há tanto tempo, o estar em contrapartida ao ser só, acrescido da remissão ao personagem Robinson Crusoé solitário e perdido numa ilha, acompanham-no para sempre. Há, nessa fala, quase que um lamento, embora compreendido na essência da vida. O eu lírico, ao que parece, não se rebela contra a carência de afetos; ao revés, busca compreendê-la e encará-la com ternura.

 

É fundamental, portanto, entender que o eu lírico está rememorando o passado, reconstruindo a cena da vida em família, dos dias eternos que vivia em companhia dos livros tão-somente, sem repartir com ninguém o lídimo sentimento da solidão, da necessidade afetiva. Era um observador nato, que enxergava os acontecimentos sem entendê-los e, no entanto, guardava-os bem dentro do peito, com riqueza de detalhes, para que, mais tarde, na maturidade, tivesse-os em torno de si.

 

A figura da preta velha, que aparece na segunda estrofe, fecha o núcleo familiar. Esta, contudo, está inserida numa estrofe à parte, numa representação, talvez, de que, apesar da proximidade das relações – e é possível até mesmo comparar a figura da empregada com a do índio Sexta-Feira da história de Robinson Crusoé –, está limitada a um contexto diferenciado. Veja-se, inclusive, que o eu lírico chega a mencionar o fato de ela ter vivido nos longes da senzala, e, disso nunca ter se esquecido (nunca se esqueceu), o que, por si só, é suficente para comprovar a tese de que o poema, apesar de não guardar um comprometimento com a forma, está estruturado segundo uma intencionalidade premeditada.

 

Falando, ainda, da figura da preta velha, nota-se que a mesma surge no meio-dia branco de luz, numa antítese denunciadora e altamente poética que induz à idéia de que, embora houvesse toda uma gama de fatores que o distinguiam da empregada, em especial as evidentes diferenças racial e de classe (ela negra, o eu lírico branco; ela empregada, o eu lírico filho do patrão), constitui, em verdade, o clarão de luz na vida do menino. Era a preta velha quem o chamava para o café.

 

E, numa comparação, do mesmo modo, poética e profunda, metafórica até, não hesita em dizer que o café era preto que nem a preta velha / café gostoso / café bom. De tais versos, pode-se extrair um turbilhão de imagens significativas. Se, por um lado, o eu lírico tinha consciência da relação de superioridade e inferioridade a que estavam dispostos a preta velha e ele, pelo outro, há a representação do único ponto convergente ao carinho para com o eu lírico em todo o poema. A preta velha o chamava para o café, ele, e só ele, tornado único, quase que tomado nos braços em meio à cadeia de solidão constituída pela família (o pai campeava, a mãe cosia, o irmão dormia).

 

É por isso que, anteriormente, afirmou-se que a preta velha fazia as vezes do índio Sexta-Feira. De fato, parece que é mesmo assim!

 

Continuando, o eu lírico achava tão boa a hora do café que tudo, pode-se mesmo arriscar, transformava-se num branco de luz: o café, tal como a preta velha, era preto, gostoso e bom. A voz dela, da mesma forma, era uma voz que havia aprendido a ninar nos longes da senzala. Assim, embora tivesse guardado uma vida tão amarga, não se havia descuidado de expressar o sentimento, ainda que de forma velada. E a sensibilidade do menino era tamanha que ele, pelo simples chamar da preta velha para o café, era capaz de enxergar os resquícios da revolta, mesmo tácita.

 

Tanto é assim que o travessão, no segundo verso da segunda estrofe, separa a constatação explícita da implícita: o menino acredita que ela nunca havia esquecido e, interiormente, mesmo que de forma precoce e embaçada, sabe que as diferenças existem. O travessão indica, ainda, que o eu lírico pode estar reconhecendo que a preta velha, por si própria, não se havia esquecido de sua própria condição de empregada da casa. Assim, pelas entrelinhas, poderá estar dizendo a mesma que não se atrevia a substituir o lugar da mãe na vida do menino, sabia muito bem o seu posicionamento em torno da família. Como dito anteriormente, até a forma do poema leva a crer que o núcleo, em sua acepção mais restrita, não envolvia a preta velha.

 

A terceira estrofe é iniciada com a repetida descrição da mãe que ficava sentada cosendo. Agora, porém, a mesma olha e se dirige ao eu lírico:     - Psiu... Não acorde o menino. E continua ele, depois, numa rememoração do passado, analisando o suspiro daquela: E dava um suspiro... que fundo!

 

O emprego das reticências, no terceiro e no quinto versos dessa estrofe, quebram a mesmice habitual dos gestos da mãe, sugerindo algo que sentia mas não sabia explicar quando criança e que, agora, identifica como algo fundo, embora ainda considere difícil de ser apreendido. Essa idéia, sem dúvida, é reforçada pelo uso do ponto de exclamação.

 

Quanto à penúltima estrofe, caracteriza-se, como a anterior, numa retomada às sensações anteriores tidas pelo eu lírico. É a reafirmação das condições caseiras: Lá longe meu pai campeava / no mato sem fim da fazenda. A vida era um ciclo incessante, aludindo, quem sabe, aos mitos de Sísifo e sua pedra e de Penélope e seu tapete. Assim, os dias se passavam e nada se modificava: o pai alheio e campeando no lá longe, a mãe ocupada com suas costuras, o irmão dormindo, a preta velha chamando para o café e o eu lírico, dono de uma sensibilidade imensa, vendo e, mais, sentindo tudo ao seu redor.

 

É nesse ponto que retorna, como era de se esperar, a história de Robinson Crusoé referida na primeira estrofe. O eu lírico, em seu tempo de criança, passava dias seguidos na mesma rotina, num marasmo total só quebrado pela leitura do livro. Observe-se o contraponto essencial: a história de Robinson Crusoé é a história da ação para conseguir sobreviver, é a história da luta da cultura com a natureza mas, ao mesmo tempo, é também a história da catástrofe, da solidão e da amizade.

 

Deste modo é que o eu lírico desfecha o poema com a constatação de que não sabia que a sua (dele) história / era mais bonita que a de Robinson Crusoé. Acredita-se, portanto, que não seja da realidade concreta e contada no poema que o eu lírico sinta saudades – posto que a rotina é imperativa. O que parece machucar o eu lírico é a ingenuidade perdida e que permite reconhecer, agora, na voz atual, todas as contradições apontadas.  O pretérito imperfeito, deste modo, valoriza de forma significativa o passado remoto e evidencia, ao mesmo tempo, o afastamento temporal em que se encontra.

 

Segundo John Gledson (1981:67), há, em "Infância", um prazer no silêncio e na calma do ambiente ('esse poema tão lindamente silencioso', conforme disse Mário de Andrade). O tempo e o espaço tornam-se infinitos no 'mato sem fim da fazenda' e a 'comprida história que não acaba mais' – a história de Robinson Crusoé, lida na revista Tico-Tico, a acreditarmos num poema escrito uns quarenta anos mais tarde, e publicado em Boitempo.

 

Para finalizar, válido é o comentário que Silviano Santiago (2002:208-9) tece a respeito de "Infância" no posfácio da obra Farewell, também de Drummond:

 

Nesse poema, é delicado o entrecruzar de experiências: a experiência calada do menino tímido e interiorano, filho de fazendeiro, com a extraordinária aventura marítima vivida em tempos antigos por Robinson Crusoé, no romance do mesmo nome. Ao ler o romance, estampado em O Tico-Tico, o menino aprecia a heróica aventura alheia, toma-a para si, identifica-se a ela e a introjeta na sua imaginação criadora, para enxergar de modo diferente a melhor família, a paisagem e a vida besta ao redor. Itabira não é a mesma depois da leitura de Robinson Crusoé. É uma outra, como se entre os olhos da criança e a cidade houvesse levantado uma tela transparente que servisse de crivo crítico e de mediação alegórica para a reconstrução das aventuras da 'infância' e, mais importante, para a invenção do poema drummondiano, em nada 'regional', como estamos vendo, na sua fatura. Termina o poema: E eu não sabia que minha história / era mais bonita que a de Robinson Crusoé. Muitos anos depois da publicação de 'Infância', trinta e oito anos depois, para ser preciso, Drummond escreve um outro poema sobre o mesmo tema, 'Fim', hoje em Boitempo I. Nele lê-se: Quando Robinson Crusoé deixou a ilha, / que tristeza para o leitor do Tico-Tico. Era sublime viver para sempre com ele e com Sexta-Feira na exemplar, na florida solidão, sem nenhum dos dois saber que eu estava aqui. O cosmopolitismo na poesia de Drummond vem, pois, da aventura-da-viagem-pela-leitura. A escolha de livros a ler é pouco seletiva, variada e rica, abarcando todos os gêneros literários e todas as épocas históricas.

 

 

 

Referências bibliográficas:

 

ANDRADE, C. D. de. Poesia e Prosa, 8. ed., Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1992.

 

GLEDSON, J. Poesia e Poética de Carlos Drummond de Andrade, São Paulo: Duas Cidades, 1981.

 

MAGALHÃES, B. "Discurso, Ideologia e Literatura", in Boletim da ABRALIN, ed. 21, jun. de 1997, coletado em 01 de setembro de 2002, no endereço eletrônico http://sw.npd.ufc.br/abralin/boletim21_tema51.html.

 

SANTIAGO, S. in ANDRADE, C. D. de, Farewell (posfácio), 8. ed., São Paulo: Record, 2002.

 

 

Érica Antunes

erica@navedapalavra.com.br

Érica Antunes é advogada, professora, pós-graduanda em Literatura Brasileira pela UNESPAR/FECILCAM e co-editora da revista Nave da Palavra (www.navedapalavra.com.br)

 

 

 


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