Palavra de Poeta
Cartas & Cartas

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Caros amigos brasileiros, estudantes da Oficina do texto:

 

            Foi-me pedido pela vossa professora, a Najla, que vos escrevesse uma carta  sobre  o meu gosto por Fernando Pessoa, que tenho tido o prazer de «ensinar» a alunos meus e sobre o qual, de resto, escrevi um livro intitulado «Para compreender Fernando Pessoa». Eu entendo «ensinar» literatura como tarefa de ajudar, guiar (exactamente como os guias dos museus que nos fazem ver melhor um quadro) na compreensão, mais em profundidade, dos textos (neste caso, poemas) dos autores que eu amo, ou seja :

Defendo que para qualquer autor/texto e mormente para Fernando Pessoa, o contacto se faça de modo «amável», isto é, numa perspectiva de fruição estética, de encantamento e de descoberta ; «ensinar» um texto será então trazer o aluno ao ‘prazer’ (que vai do coração para a cabeça, como dizia Almada Negreiros num texto muito bonito, intitulado «A flor») do contacto com modos de dizer / organizar as palavras produzindo sentidos ‘outros’ (estamos no domínio da ‘transcendência’, dado que na base da criação poética está a metáfora, criadora de realidades ‘outras’; o texto é, assim, uma ficção, um fingimento em que nos reconhecemos - ou não...«sentir, sinta quem lê», como dizia Pessoa).

Ora, sabemos, o acesso ao transcendente faz-se pela via da iniciação e por degraus - iniciando-se no caso vertente pela emoção ( o coração que, como no poema de Pessoa, é um «combóio de corda» que «gira a entreter a razão»).

 Assim, há que evitar o excesso de erudição literária, (vertida em «caça a recursos estilisticos» ou em exaustivas análises e dissertações eruditíssimas, carregadas de conceitos e de palavras complicadas), que mata, no geral, o prazer...

É do contacto «amável» com os textos que poderá nascer também a vontade de criar, ou re-criar, produzindo novos textos – e é essa, creio, a função de qualquer «oficina de textos» como a vossa.Porque isto de «lutar com palavras», como dizia Carlos Drummond de Andrade, «é a luta mais vã/ Entanto lutamos,/mal nasce a manhã».

O meu primeiro contacto com a obra de Fernando Pessoa vem de bastante cedo, quando comecei a ler versos de «Mensagem» - os únicos difundidos e dados a conhecer durante o regime de ditadura de Salazar ( que durou 48 anos,,,), porque se sublinhava nesses versos o seu pendor nacionalista e não universalista. Depois, fui lendo (vou lendo sempre) pela vida fora os versos e também a prosa de Pessoa, na convicção de que ele, como Camões, Padre António Vieira, Guimarães Rosa , José Saramago ou Mia Couto (entre outros que em Portugal, Brasil e África escrevem na nossa pátria comum que é a língua portuguesa), constitui uma espécie de «aleluia da língua portuguesa». Pessoa tem sido para mim um prazer e um desafio constante a novas leituras. Devo dizer-vos que uma das mais belas prendas de aniversário que tive, recebi-a tinha eu 18 anos(hoje tenho 57): a 1ªedição da Obra Poética de Fernando Pessoa, da editora brasileira Aguilar. Hoje tenho essa e a mais recente e mais completa da mesma editora. E continua a ser a edição que prefiro ler, ainda que com o inconveniente, para nós, portugueses, da ortografia brasileira (parece que não vai nunca ser possível – e seria desejável? – uma ortografia comum...)

.Considero Fernando Pessoa um dos maiores poetas de sempre, a nível mundial. Ele deu corpo às angústias e perplexidades do seu tempo e também do nosso - e atrevo-me a dizer, se calhar ainda mais do nosso e dos tempos que aí vêm neste século XXI. Ele e suas vozes e heterónimos deram corpo ao drama da cisão do eu, da busca constante da desejada «unidade» do sentir e do pensar, do ser e do estar, do múltiplo e do uno. Ao drama também da morte de Deus e dos sucedâneos - a fé na ciência (se mais não fosse posta em causa pela revolução einsteiniana), a fé na razão (posta em causa, que mais não fosse, por Freud), de certo modo a fé no progresso (posta em causa por uma e mais tarde outra guerra mundial). Deu corpo a antevisões (prefiro designar assim os seus aspectos precursores: o sentimento e filosofia do absurdo, o existencialismo, a escrita surrealista). Por isso, muito depois de os brasileiros se terem apaixonado por Pessoa ( bem mais cedo que a maioria dos poetugueses), o mundo inteiro o descobriu, sobretudo a partir desse magnífico Livro do Desassossego, de Bernardo Soares. É minha firme convicção que Pessoa continuará a ser sempre redescoberto pelos séculos fora(basta ver o número de sites pessoanos existentes na Net...e a vastíssima bibliografia existente sobre ele, para além dos in+umeros encontros e congressos internacionais a ele dedicados) E se porventura não foi o «supra-Camões»(terá sido?) que quis ser, está a par dele na grandeza e beleza dos seus versos.

Ao longo das minhas leituras vou variando de Pessoa(s) preferidos: aos 18 anos não tinha d´vidas: era Álvaro de Campos, o dividido entre a lealdade devida à Tabacaria «como coisa real por fora» e a «sensação de que tudo é nada, como coisa real por dentro».Depois, foi Caeiro, o Mestre, o «argonauta das sensações verdadeiras», procurando recuperar a eterna criança que o habitava; mais tarde foi Ricardo Reis, o contido, o melancólico, o que acionselha, o céptico, mesmo no amor (que só teve por Lídias virtuais, até que Saramago o fez amar uma Lídia real, em «O ano da morte de Ricardo Reis»); de todos continuo a gostar muito, e aporendi ebntretanto a apaixonar-me pela poesia do Fernando Pessoa ele mesmo, o criador de todos os outros, inclusive desse magnífico Bernardo Soares, o do (não é o +único) desassossego, numa espécie de implosão de todos os outros no interior da sua prosa poética.

Mas já chega de falar de mim. Gostaria só de vos contar uma história passada comigo. Se dúvidas houvesse sobre reconhecimento universal de Pessoa, elas dissipar-se-iam. Aí vai uma história real, com que inicio, de resto, o meu livro Para compreender Fernando Pessoa (Areal editores, Porto, 1996) :

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            1987, Agosto. Palermo - Sicília.

            Entro numa livraria Feltrinelli. Nos escaparates, e com a indicação de best- seller, o «Libro dell'Inquietudine» de Bernardo Soares, em 4ª ou 5ªedição. Folheio atentamente e tento adivinhar o sabor, em italiano, daquela belíssima prosa poética portuguesa. 

O livreiro, de não mais de 30 anos, vem ter comigo. E diz em italiano :- Signora, prego...

Ouço, atenta.

—Se quer conhecer esse autor, é melhor começar por este outro livro –

 e mostra-me o 1ºvolume de Una sola multitudine- a poesia de Pessoa em tradução italiana. E retoma:

—Trata-se de um autor português deste século que tem a particularidade de não ser um, ser vários - Alberto Caeiro ( e enumerou as características deste poeta),  Álvaro de Campos, Ricardo Reis, e ele próprio, Fernando Pessoa ( e continuou,  sucintamente, a caracterizar a poesia dos diversos Pessoa, «uma só multidão», como constava do título italiano).

-- Portanto, «Signora», se não conhece o autor, leve antes este livro.

             Eu ouvia, encantada,  as explicações. E depois disse:

-- «Grazie» -  mas eu leio  Fernando Pessoa na língua original, porque sou portuguesa ( e disse isto no meu italiano 'mal amanhado' ).

              O homem ficou com ar de quem ensina o padre-nosso ao vigário, mas eu atalhei:

            --Não se preocupe, você é um bom livreiro e vê-se que conhece Pessoa, e eu gostei de o ouvir falar.

Respondeu: -Sim, ele é o vosso Dante.

            -Bom, disse eu, eu entendo o que quer dizer, que ele é o nosso maior  poeta , mas talvez o nosso Dante, no sentido de clássico, seja antes Luís de Camões, o autor de «Os Lusíadas».

            - Também já ouvi dizer, mas nunca o li. Mas Fernando Pessoa não é só o vosso maior poeta, mas o maior poeta do século...

            Deixei-o com a sua opinião - e fiquei feliz por, longe de Portugal, haver quem conhecesse - e bem-  um português para além dos consagrados Eusébio, Amália Rodrigues ou mais recentemente, Luís Figo. E perguntei-me se e quantos dos nossos livreiros, dos nossos estudantes, teriam um conhecimento tão sólido de Pessoa. E isto apesar de se ter dito,  que «tanto Pessoa já enjoa» -depois que em 1985 e 1988 se fizeram comemorações do cinquentenário da morte e do centenário de nascimento, e depois que Pessoa se tronou, a par de Camões e de D.Sebastião, o nosso mito nacional

.(Claro que só enjoa os naturalmente enjoados, acrescento).

E de também os portugueses gostarem de se fazer fotografar na mesa de Fernando Pessoa, ali, em Lisboa, junto  à estátua do poeta,  frente à Brasileira do Chiado.

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            Se conto esta história, que se passou comigo, é porque ela fala por si da enorme repercussão que Pessoa tem por esse mundo fora. E nos acrescenta, natural e justificadamente, o orgulho de sermos seus compatriotas de língua...Que sorte têm os países lusófonos de poderem ler Pessoa na língua original...

            Desculpem, a carta vai longa, reconheço. Mas vai com todo o carinho que me merecem os irmãos brasileiros que tanto têm feito para a divulgação de Fernando Pessoa.

 

 

            Amélia  Pinto Pais, professora


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