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Mauro Bittencourt Santos, no artigo "Contrato de Cooperação e Implicaturas", apresenta alguns estudos sobre a existência de um contrato de cooperação entre os interlocutores e as respectivas implicaturas, tudo em consonância com a teoria de Grice.
Sob a óptica deste, as pessoas, ao se comunicarem, aderem a certas regras de conduta visando a eficácia da mensagem, ou seja, interagem, perguntando e respondendo, esperando a vez de falar e assim por diante. Para Grice, portanto, as conversas se traduzem em verdadeiros esforços cooperativos.
Para que a comunicação seja bem sucedida, contudo, há estratégias que podem, do mesmo modo, ser nominadas máximas e correspondem à quantidade, à qualidade, à relevância e ao modo como é transmitida a mensagem.
Melhor explicando, tem-se:
a) a máxima da quantidade, que se refere ao número de informações esperadas do autor. Ex.: o endereçamento postal completo torna eficaz a troca de correspondências. Se não for realizado de forma correta, há falta de esforço cooperativo e, conseqüentemente, a quebra na troca de mensagens;
b) a máxima da qualidade, que corresponde à verossimilhança das informações, ou seja, o destinador precisa acreditar que a informação transmitida é verdadeira e, mais, que existe evidências de que seja verdadeira. Ex.: uma placa de trânsito indicando as condições do tráfego ou a sinalização gestual feita por profissional uniformizado;
c) a máxima da relevância, que diz respeito, como é de se esperar, à pertinência da informação ao contexto, visando, é claro, tornar fácil a compreensão da mensagem. Ex.: o gramado de uma escola com placas sucessivas – "Ande mais um pouco", "Prolongue sua vida", "Andar faz bem à saúde". A finalidade, nesse caso, era, tão-somente, a preservação do gramado e não uma reflexão sobre a saúde e a vida; e,
d) a máxima do modo, que se refere ao "como" ocorre a informação, ou seja, a mensagem não deve ser obscura, ambígua, prolixa ou desordenada. Por obscuridade, entenda-se a utilização de palavras ou expressões que não abrem o sentido da mensagem para o leitor. A ambigüidade, por sua vez, está relacionada à intenção do autor, pois que este deve empregar palavras e expressões bem delimitadas e precisas, favorecendo o entendimento unívoco. Já a prolixidade está ligada diretamente ao poder de concisão, em que o autor deve transmitir o máximo de informação com o mínimo de palavras. Finalmente, a desordem aparece atrelada à disposição do texto, pois que as informações devem ser encaixadas ou, numa linguagem neológica, "lincadas".
Outro requisito necessário para a eficaz compreensão da mensagem é o que Grice denomina "inferências", que pode ser definida como a utilização do conhecimento do sentido literal das palavras acrescido a outros conhecimentos (do contexto, de mundo). Em outras palavras, as inferências auxiliam o leitor a perceber o sentido real do texto. Em suma, pode-se mesmo dizer: fazer inferências é ler as entrelinhas, é ir além da simples palavra escrita, é situá-la no contexto e no mundo.
Para Grice, as inferências são geradas de duas formas diferentes, dependendo da atitude do autor para com as máximas. Assim, ou o autor as obedece ou as desobedece proposital e abertamente. Neste caso, fala-se que ocorre a extrapolação das máximas, o que dá ensejo à implicatura.
A implicatura, quando relacionada com a máxima da quantidade, pode demonstrar, como no exemplo "sua irmã é sua irmã, você é você", que as características ou natureza de ambas são muito diferentes. O que, em princípio, parecia uma repetição desnecessária (sua irmã é sua irmã), adquire uma razão que supera as expectativas e conduzem a uma informação subentendida, tácita, velada.
Quando, de outra feita, a implicatura está atrelada à máxima da qualidade, verifica-se, não raras vezes, que a intenção é de, realmente, gerar sentido diverso do usual, valendo-se, para tanto, das figuras de linguagem. Os textos publicitários são os melhores representantes de tal acontecimento, como se nota em "Felício bateu o carro e quebrou o pai. Faça um seguro X".
No que tange à máxima da relevância, a implicatura pode aparecer, por exemplo, para indicar uma ironia fina, como o texto de Jô Soares publicado na revista Veja, no dia 19/02/92, e que narra uma festa entre os políticos em que os mesmos falavam amenidades e a "socialite", chegando atrasada, exclamou um "Bonito jardim. Quanto será que custou?" Ou seja, o discurso da "socialite" estava deslocado do contexto, da temática das conversas. Note-se que, justamente na época da publicação do texto, falava-se do montante gasto com o jardim da Casa da Dinda, residência oficial do então presidente Collor. É evidente que o autor do citado texto desejou, empregando a ironia, reproduzir a situação vexatória dos políticos ao tocar, justamente, no "calcanhar de Aquiles" dos mesmos.
Para finalizar, a implicatura, com referência à máxima de modo, pode ser vista pelo âmbito da ambigüidade, bastante explorada pelo meio publicitário, como em "Tem repórter aqui que só pensa em mulher"; da obscuridade, empregada como um código entre os interlocutores, como em "Espero você no mesmo bat-lugar, na mesma bat-hora"; da prolixidade, para provar que algo é, definitivamente, o que se afirma; e da desordem, para enfatizar uma postura pouco comum diante dos acontecimentos.
Em suma, a implicatura possui uma relação íntima com a intencionalidade do autor, pois que este, por vias contrárias às máximas defendidas por Grice, conduz à exata compreensão da mensagem. Ou seja, há ocasiões em que a implicatura (ou extrapolação das máximas) é intencional e visa provocar no leitor uma sensação de estranheza ao início que, com o curso do texto, leva a crer que, no entanto, é necessária. Tal acontecimento, certamente, é atributo da catarse.
Finalizando, pela óptica de Grice, o autor pode ser cooperativo, na medida em que se utilize das máximas, ou não-cooperativo ao desobedecê-las e exigir que o leitor faça inferências específicas para chegar às possíveis implicaturas.
Referência bibliográfica:
SANTOS, M. B., "Contrato de Cooperação e Implicaturas"; in MEURER, J. L. e MOTTA-ROTH, D. Parâmetros de Textualização. Santa Maria: Editora UFSM, 1997.
Érica Antunes
erica@navedapalavra.com.br
Érica Antunes é advogada, professora, pós-graduanda em Literatura Brasileira e co-editora da revista Nave da Palavra (www.navedapalavra.com.br).
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